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Opinião – O crime que virou espetáculo

EditorPor Editor26 de abril de 20086 Mins Leitura
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Por Daniela Cristina Machado

De tempos em tempos acontece um fato que choca e ao mesmo tempo mobiliza o país. Quando se refere à violência praticada contra uma criança, a proporção desse acontecimento toma rumos inimagináveis

Há um ano e dois meses, João Hélio Fernandes Vieites, de 6 anos, foi mais uma vítima da falta de segurança pública no nosso país. No dia 7 de fevereiro de 2007, o menino estava no carro com a mãe quando foram abordados por assaltantes, no bairro Osvaldo Cruz, Zona Norte do Rio de Janeiro. A mãe saiu do veículo, mas não conseguiu retirar a criança, que estava no banco traseiro, presa ao cinto de segurança. Durante 7 km João Hélio foi arrastado pelo carro conduzido pelos bandidos.

Há um mês, no dia 29 de março, Isabella Nardoni, de 5 anos, morreu após ser asfixiada e jogada do sexto andar de um prédio de classe média localizado na Zona Norte de São Paulo. O pai, Alexandre Nardoni, e a madrasta, Anna Carolina Jatobá, são os maiores suspeitos de terem cometido o crime.

O que esses dois casos têm em comum não é apenas a atrocidade com que foram cometidos, mas também o sensacionalismo provocado pela mídia e pela população. Claro que os veículos de comunicação estão cumprindo o seu papel de informar, contudo essa cobertura passou dos limites. Até um salão de beleza que funciona defronte a delegacia onde estão transcorrendo as investigações, chegou a lugar a sacada para cinegrafistas e fotógrafos pegarem os melhores ângulos dos acusados e das testemunhas. O pai e a madrasta de Isabella precisam de ajuda policial para sair de casa tamanha a aglomeração dos jornalistas e do povo.

Pra que tudo isso? O caso Isabella Nardoni virou novela, mini-série. Pessoas deixam de trabalhar para ficar em volta da delegacia ou da casa do pai e da mãe da menina. Fico me perguntando por que elas não se juntaram para lutar por melhorias na segurança pública, na educação e na saúde ao invés de tentarem fazer a justiça com as próprias mãos. O caso do menino João Hélio também teve esse sensacionalismo, todavia já foi quase esquecido. Ou por acaso alguém viu essas mesmas pessoas que cercaram a delegacia onde estavam os assassinos de João Hélio protestando em Brasília por maior rigor nas leis penais?

Não, ninguém viu. Parece que a maioria só quer ter alguns minutos de fama em rede nacional. Cansei de ver repórteres sem ter mais o que falar do fato perguntando à opinião pública Quem é o autor do crime? Pensei que esse era o papel da Polícia.

Para se ter uma idéia de como as pessoas foram influenciadas pela mídia no envolvimento com o caso, o site de relacionamentos Orkut possui mais de mil comunidades relacionadas à Isabella. A maioria delas pedindo justiça. Diversos perfis foram criados para Alexandre Nardoni. Pessoas se passam por ele, para abrir um espaço onde todos possam deixar seu recado. A página de Ana Carolina Oliveira, mãe da menina, registra centenas de scraps, os quais passam palavras de consolo de brasileiros que moram dentro e fora do país.

O portal de vídeos YouTube tem 643 vídeos postados referentes à Isabella, sendo que a sua quase totalidade dedica-se a homenageá-la com fotos e músicas. Os portais de notícias, os telejornais e as rádios estão atualizando o caso a todo o momento. Os jornais e revistas estampam em sua capa reportagens especiais sobre o caso. Esse é o assunto do momento, quase não se fala de outra coisa.

Até o mês passado não sabíamos nem que Isabella Nardoni existia, hoje conhecemos sua casa, o colégio onde estudava e os coleguinhas. Sabemos quais eram seus hobbies preferidos, assistimos vídeos de seus aniversários e apresentações de dança e teatro, fotos de seus passeios, etc. Enfim, ela acabou se tornando parte de nosso cotidiano, pois ao entrarmos em contato com qualquer veículo de comunicação lá vai estar o caso sendo noticiado. E mesmo que consigamos fugir da mídia, em casa, na escola, no trabalho, no supermercado, no bar da esquina, o assunto vai ser discutido pelas pessoas.

Ao mesmo tempo em que a grande maioria da população brasileira se interessa em saber as novidades das investigações, outra mísera minoria protesta. Silenciosa e quase imperceptível. Como a comunidade CASO ISABELLA=SENSACIONALISMO! que possui apenas 182 membros, número muito inferior à comunidade ISABELLA NARDONI * Isabella *, com 135.023 membros.

Será que essa mesma mobilização aconteceria se a menina fosse de uma família humilde? Certamente ganharia apenas um pequeno espaço em alguns veículos de comunicação e com certeza não ocuparia 35 minutos da programação do Fantástico.

Não quero parecer incessível. Também fiquei chocada e indignada com a morte de Isabella. Mas a questão que estou criticando aqui é o grande espetáculo que a mídia criou em cima desse caso.

O problema maior é o proveito que alguns estão tentando tirar dessa situação. O YouTube está sendo um dos espaços onde esses sujeitos procuram se auto-promover por conta desse crime. Existe um vídeo chamado Isabella Nardoni Música preferida dela que na verdade não passa de um videoclipe caseiro de funk que não tem nada a ver com a garota. Ao olhar o número de acessos (15.853), podemos notar que todas essas pessoas, assim como eu, procuravam informações sobre Isabella e acabaram se deparando com um tal de Mc Waguinho fazendo performances para a câmera.

Mas o pior ainda não é isso. Ao digitar no campo de busca do Facebook o nome da menina encontrei, entre as diversas notícias, opiniões, fotos, vídeos, sites e blogs, charges de humor negro sobre o caso. Uma delas mostra (em formato de desenho) Isabella era chamada a voar por Peter Pan. Sem pensar, a menina se joga da janela e cai no jardim do prédio. Outras duas comunidades do Orkut acreditam que a justiça só será feita se chamarem os personagens do filme Tropa de Elite e do seriado americano CSI.

Pessoas que fazem esse tipo de brincadeira com um fato tão sério, são tão ou até mais insanas como esses criminosos que mataram Isabella e João Hélio. Sem dúvida a mídia, ao insistir tanto em um mesmo assunto, incentiva a produção virtual tanto da avalanche de materiais de apoio à mãe e homenagens a menina, quanto brincadeiras sem nenhuma graça.

Enquanto a imprensa se mobiliza no caso Isabella, 110.783 pessoas foram infectadas pelo mosquito da dengue só no Rio de Janeiro e outras 92 já morrem. Estamos diante de um grave problema de saúde pública que atingir todo o país e faz mais vítimas a cada dia. Mas sobre isso, ninguém fala mais nada.

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