Eva e Antônio se conheceram no lar, onde aconteceu a cerimônia simbólica.
Eva Nery Câmera e Antônio Roberto Sperling superaram trajetórias bem diferentes na vida até chegarem no Lar São Francisco em São Leopoldo, onde vieram a se conhecer e onde puderam ontem, 18 de maio, celebrar o amor descoberto, no meio de uma pandemia. “É uma vitória para nós, porque fomos beneficiados por Deus em não pegar essa enfermidade. Lamentamos muito as perdas. Vamos rezar para que isso passe logo e tudo volte ao normal”, conta Antônio.
Logo que se encontrou, o casal desenvolveu afinidade. Descobriram na canastra um ponto comum e um motivo para se tornarem parceiros. “Eu convidei ele para jogar canastra e daquele dia em diante nós jogávamos sempre”, afirma Eva. Foi a partir dessa cumplicidade que o amor surgiu e que pouco mais de um mês, os dois ficaram noivos. “O que causou esse amor foi a canastra”, brinca Antônio.
Para Eva conhecer o esposo foi um presente muito esperado. “Muito rezei embaixo dessas árvores. Eu pedia para Deus que me desse um companheiro que me amasse para o fim da vida e que eu amasse. E que se não fosse pedir muito, eu queria com os olhos claros. Apareceu então”, brincou Eva.
A cerimônia simbólica contou com uma missa e bênção do padre Ramiro Mincato, da Paróquia do São José Operário – Fião. Eva, que era viúva, conta que está muito feliz com a união. “Eu me sinto muito feliz. Eu me sinto a senhora Sperling”, comenta.
Também contente com a celebração, Antônio que oficializou sua primeira união, relata que está realizado. “Estamos nos sentindo muito bem, era uma meta nossa e conseguimos realizar”, completa.
Todos os idosos e colaboradores do Lar São Francisco estão imunizados com ambas doses contra a covid-19 e devido a isso, a equipe do lar se sentiu segura para tornar o desejo dos noivos uma realidade. A assistente social do Lar, Mara Inês Wickert da Silva, conta que foi um momento muito especial participar da organização. “É um momento único. Quando definimos com o casal marcar a união, tivemos uma preocupação devido a pandemia, mas foi possível viabilizar”. A cerimônia acontece somente para os moradores da casa repouso, funcionários e um familiar de cada noivo, representando o vínculo familiar.
Destinados
Antes de chegar no Lar São Francisco há seis anos, Eva, que prefere não revelar a idade, se encontrava em situação de abandono. Sozinha, vivia em um prédio na cidade de São Leopoldo. Costumava ir com recorrência até uma padaria próxima de sua casa e foi então que conheceu Sirlei Couto, 50 anos, que na época era balconista do estabelecimento. “Ela ia comprar uma fatia de queijo, uma fatia de mortadela e um pão e isso começou a mexer comigo, então passei a ajudar”, lembra Sirlei.
Sirlei ou “filha do coração” como Eva prefere chamar, cuidou dela por, aproximadamente, um ano. Ambas se conheceram próximo ao natal, há cerca de sete anos. No dia da ceia, Sirlei recordou de Eva e foi até sua casa para compartilhar com ela parte do jantar. “Eu fui levar algo para ela. Ela chorou e me agradeceu, disse que foi um anjo que me mandou lá, porque nem pão tinha para comer. A partir desse dia eu passei a cuidar dela com todo meu carinho”, afirma Sirlei.
Foi a partir da recomendação de um médico de Eva, que Sirlei passou a procurar por um lar. “Ela me pedia para eu conseguir vaga. Então entrei em contato com o Lar São Francisco e eles foram muito atenciosos. Levou cerca de seis meses para conseguirmos uma vaga”, completa Sirlei.
Muito feliz em compartilhar da celebração do amor de Eva e Antônio, Sirlei conta que perdeu sua mãe há quatro anos e que se surpreendeu com o destino, pois sua mãe também se chamava Eva. “Essa vozinha tem um espaço muito grande no meu coração. Eu estou muito orgulhosa de estar aqui hoje”, finaliza.
Muito querida por todos os moradores e trabalhadores, Eva é uma pessoa muito alegre e carinhosa. Gosta de cantar, declamar poesia, sabe falar algumas frases em inglês, espanhol e francês e se diverte no lar.
Antônio, 66 anos de idade, chegou no lar há pouco mais de um ano. Antes disso estava em situação de rua e utilizava o serviço municipal de acolhimento institucional, o Centro de Referência Especializado para a População Adulta de Rua (Crepar). Já com idade para acessar o Lar, conseguiu uma vaga e foi quando encontrou, além de uma moradia, uma parceira para a vida.
Ele conta que foi durante a reclusão, que o Lar enfrentou devido a pandemia, que pode perceber seus sentimentos com mais intensidade e a importância do companheirismo construído com a esposa. “Por causa desse vírus a gente fica confinado, então a união se torna mais firme, saudável e agradável. Se temos certa liberdade, saímos mais e não vemos a intensidade e o valor da união”, afirma o marido. Devido a pandemia o Lar São Francisco teve sua rotina modificada, sem receber familiares ou grupos externos de atividades de integração.
Planos para o futuro
O casal relata que estuda a possibilidade de procurar um local diferente para morar, mas que estão muito felizes no Lar São Francisco. “É um passo que precisamos pensar bastante. Precisamos pensar na nossa saúde”, reporta Antônio. Eva diz que a casa repouso é calma e que se sentem bem. “Em lugar nenhum tem uma casa como essa aqui. Vivemos em harmonia”, completa.
Momentos marcantes como esse ficam para a história do Lar, que desde 1941, nunca havia celebrado uma união no local. A coordenadora do Lar São Francisco, Tatiana Fiori, ressalta que a celebração é muito especial para todos. “Eva e Antônio nos dizem que enquanto estivermos neste mundo a gente precisa investir nas relações, a gente precisa ser feliz, a gente pode viver em sua plenitude. Ficamos felizes que aqui no Lar São Francisco, com nosso trabalho diário, possibilitamos que os idosos continuem a desejar e a realizar seus sonhos”, finaliza Tatiana.
Fotos: Thales Ferreira
Informações: PMSL

