“É uma ideologia, e não se pode acabar com ideologias”, diz. Ele trabalha para prender responsáveis por agressões.
Da Redação redacao@novohamburgo.org (Siga no Twitter)
“O neonazismo é uma coisa que jamais vai acabar”, afirma o delegado que indiciou 35 neonazistas no Rio Grande do Sul nos últimos dez anos, Paulo César Jardim, da 1ª DP. Ele afirma que está “na gênese” do gaúcho a acolhida a movimentos deste tipo.
“A origem do povo gaúcho é colonial e, além disso, a Argentina, que abrigou oficiais nazistas após a 2ª Guerra Mundial, está aqui do lado e preocupa. Para a consolidação dessa ideologia, deve existir um meio viável, caso do Rio Grande do Sul”, avalia. “É um sentimento, uma ideologia, e não se pode acabar com ideologias, mas evitar suas conseqüências e ações.”
Uma briga envolvendo punks, skinheads e ao menos um neonazista aconteceu no último sábado, dia 06, em um bar de Porto Alegre. A atuação de grupos que pregam o ódio e a discriminação no Sul do país é inspirada pela ideologia de Adolf Hitler.
Segundo Jardim, a motivação para a pancadaria do último sábado, que deixou um homem negro esfaqueado, foi uma discussão entre punks e skinheads. Os envolvidos, porém, já possuem uma ficha criminal conhecida por crimes como agressão a homossexuais, judeus e negros, que configuram a ideologia nazista.
“Eles seguem a idéia da instituição de uma raça pura através da eliminação dos que não se enquadram nela. No Rio Grande do Sul, Santa Catarina, Paraná e São Paulo, os movimentos neonazistas escolheram pessoas que devem ser eliminadas por pertencerem a uma ‘subespécie'”, salienta Jardim.
“Estamos trabalhando para
prender essas pessoas”
O delegado relata estar preocupado com a expansão do movimento neonazista no Brasil. “O desafio é conseguir abortar os ataques, como foi feito em 2010, quando foram desmontadas cinco células neonazistas. Apreendemos bombas, munição, e armas, e evitamos a explosão de uma sinagoga e um ataque na Parada Livre de Porto Alegre”, afirma.
Jardim, que se especializou em investigar como esses grupos atuam, viaja constantemente a São Paulo e troca informações com as polícias de outros estados. “As mesmas bombas que nós apreendemos aqui foram usadas em São Paulo, o que comprova a ligação material entre os grupos”, justifica.
“Estamos trabalhando para prender essas pessoas. A situação deles nos últimos anos está complicada e alguns vão responder, em júri popular, por tentativa de homicídio, formação de quadrilha e corrupção de menores”, garantiu o delegado, que também investiga a ligação material entre os grupos, como fornecimento de dinheiro e armas entre os Estados.
HUMILHAÇÃO – No código de condutas de um neonazista, um dos requisitos é saber lutar e andar armado, estando sempre pronto para um combate. Além disso, eles costumam tatuar o corpo com diversos símbolos e desenhos que fazem apologia à doutrina de Hitler.
“Eles são de uma agressividade muito grande e seguem uma idéia de que não se deve apenas derrotar o inimigo, mas humilhá-lo, acabar com ele, impor o medo. O seu combustível é o ódio e eles já saem às ruas preparados para briga com soqueiras, facas e outros objetos cortantes. Se a pessoa identificá-los em algum local, é interessante sair de perto, pois eles são sinônimo de confusão”, recomenda Jardim.
Agressividade não é nova
no Rio Grande do Sul
Em 2010, um grupo de defesa dos direitos dos travestis no Rio Grande do Sul recebeu ameaças por telefone de um suposto neonazista, que disse preparar uma ação na 14ª Parada Livre. Em edição anterior do evento, cartazes que pregavam a morte de homossexuais foram afixados no local onde ocorre a passeata.
Em novembro do mesmo ano, policiais civis apreenderam material de apologia ao nazismo em uma residência no centro de Porto Alegre. Foram recolhidos fotografias, CDs, camisetas, distintivos, facas, uma soqueira e um laptop, mas ninguém foi preso. Em 2009, apreensões semelhantes ocorreram em Cachoeirinha, Viamão, Porto Alegre e duas cidades da serra gaúcha.
Em 2009, o casal Bernardo Dayrell e Renata Ferreira foram assassinados após uma festa neonazista no Paraná. O crime foi cometido na BR-116, em Quatro Barras, região metropolitana de Curitiba, e teve motivações de disputa entre o grupo neonazista liderado por Dayrell e Ricardo Barollo, apontado pela polícia como o mandante do duplo homicídio. Além dele, Jairo Maciel Fischer, Rodrigo Motta, Gustavo Wendler, Rosana Almeida e João Guilherme Correa foram acusados de participar no crime.
HITLER – No dia do assassinato do casal, vários membros do grupo neonazista foram a uma festa em comemoração ao aniversário de Adolf Hitler em uma chácara de Quatro Barras. Conforme a lei 7.716, de 1989, “fabricar, comercializar, distribuir ou veicular símbolos, emblemas, ornamentos, distintivos ou propaganda que utilizem a cruz suástica ou gamada, para fins de divulgação do nazismo” resulta em pena de até três anos de reclusão.
Informações de portal Terra
FOTO: divulgação / Polícia Civil