
Investigações do Delegado atingem o âmago do poder, revela relações suspeitas entre investidores, governos e imprensa. É decisivo para os envolvidos desqualificar o policial para anular as investigações e as acusações.
A CPI das Escutas Telefônicas ouviu hoje o delegado da Polícia Federal Protógenes Queiroz. O depoimento é o segundo do delegado à comissão. O presidente CPI, deputado Marcelo Itagiba (PMDB-RJ), informa que um dos objetivos dos parlamentares é pedir explicações a Protógenes Queiroz sobre as contradições entre os depoimentos prestados à comissão e à Polícia Federal.
O delegado comandou a Operação Satiagraha, que resultou, no ano passado, na prisão de 20 pessoas acusadas de crimes financeiros. Entre eles, o empresário e investidor financeiro Naji Nahas, o banqueiro Daniel Dantas, dono do Opportunity, e o ex-prefeito de São Paulo Celso Pitta. No inicio deste mês, a PF indiciou criminalmente Protógenes e mais quatro escrivães pelos crimes de quebra de sigilo funcional e violação da Lei de Interceptações.
Protógenes Queiroz prestou depoimento acompanhado dos senadores José Nery (Psol-PA), Eduardo Suplicy (PT-SP) e Pedro Simon (PMDB-RS). A reconvocação do delegado foi pedida pelos deputados Raul Jungmann (PPS-PE), Vanderlei Macris (PSDB-SP) e Nelson Pellegrino (PT-PE).
O delegado provocou uma profunda crise entre o poder, ao envolver Daniel Dantas com o Ministro do STF, Gilmar Mendes e a muitas outras pessoas influentes nos círculos de poder, desde o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso até membros do Governo Lula.
Protógenes causou ainda mais desconforto ao envolver articulistas e jornalistas de grandes veículos de informação na manipulação de informações e proteção aos negócios dos acusados. Protógenes teria chegado a estes jornalistas a partir de interceptação de e-mails e telefonemas, autorizados pela Justiça, entre Dantas e seus sócios e os jornalistas. Entre os envolvidos está Diogo Mainardi, da Revista Veja, e Eliane Catanhede, da Folha de S. Paulo. Mais de 20 jornalistas são citados.
Segundo o relatório de Protógenes “há indícios de que Dantas tenha certa ascendência sobre alguns jornalistas e editores. Isso pode ocorrer mediante o pagamento de subornos, embora não se descarte a possibilidade de recurso à chantagem ou coação, com base em informações pessoais de seus alvos de interesse, as quais ele obteria por meio de atos de espionagem clandestina”, afirma. Em suas investigações, Protógenes esmiúça relações econômicas entre os envolvidos, como o pagamento de R$ 2 milhões em “honorários” feito pela empresa Brasil Telecom, de Dantas, ao Ministro de Lula, Mangabeira Junger.
Protógenes reafirma existência de crimes contra o país
O delegado da Polícia Federal, Protógenes Queiroz, afirmou há pouco à Comissão Parlamentar de Inquérito das Escutas Telefônicas Clandestinas da Câmara que, durante a Operação Satiagraha, comandada por ele, foram encontrados documentos nas dependências da multinacional Kroll, obtidos por meio de espionagem, que são “nocivos à autoridades brasileiras e ao país”.
Protógenes afirmou, em resposta a uma pergunta do relator, deputado Nelson Pellegrino (PT-BA), que a Kroll possuía documentos contra empresas com interesses contrários aos do banqueiro do Daniel Dantas e ao grupo Oportunity.
“A Justiça americana solicitou que a Kroll apresentasse todos os dados de espionagem contra a BrasilTelecom. A empresa apresentou mais de 250 caixas contendo documentos que eram nocivos ao país”, disse Protógenes. “Dados de espionagens que tratavam da transposição do Rio São Francisco, privatização da Petrobras e da Vale do Rio Doce”, acrescentou o delegado.
Segundo o Protógenes, os documentos eram uma tentativa de cooptação de várias autoridades, inclusive, com o pagamento de suborno a integrantes do Congresso Nacional.
Protógenes afirmou também que a Operação Satiagraha não realizou interceptações ilegais. “Todas as interceptações telefônicas na época da Satiagraha foram legais, inclusive com a vigilância dioturna do Ministério Público Federal”.
Protegido por um habeas corpus preventivo concedido pelo Supremo Tribunal Federal, Protógenes se absteve de responder aos questionamentos sobre a participação de servidores da Agência Brasileira de inteligência (Abin) na Satiagraha, a utilização de senhas do Sistema Guardião e também em relação aos equipamentos utilizados na operação. Ele ressaltou, no entanto, que todos os equipamentos da Polícia Federal são auditáveis.
“Todos os dados coletados em qualquer equipamento da Polícia Federal são auditados. Não há tecnicamente sistema que faça qualquer tipo de adulteração em qualquer dado coletado. Os dados da Satiagraha estão disponíveis na Justiça e no Ministério Público”, disse Protógenes.
Matéria atualizada às 17:02
