A Casa Heinrich Müller faz parte da paisagem de Ivoti desde 1898, muito antes de a Rua São Leopoldo ter o movimento e a configuração que conhecemos hoje. Naquele ano, Heinrich Müller construiu a residência onde viveria com a família. Agricultor e ferreiro, ele provavelmente não imaginava que, quase 130 anos depois, aquelas paredes continuariam de pé — e ajudariam a contar não apenas a história de seus descendentes, mas também um pedaço da trajetória do município.
A Casa Heinrich Müller é uma das edificações destacadas neste mês pela programação do Mês do Patrimônio Histórico de Ivoti. Tombada como patrimônio histórico e cultural do município, a construção chama atenção na Rua São Leopoldo pela arquitetura e pelo estado de conservação.
Com 173 metros quadrados, a residência apresenta uma configuração característica das construções em estilo enxaimel, combinada a adornos ecléticos. Apesar do tempo, permanece pouco alterada em relação às suas características originais e segue ocupada.
Mas é quando se olha para além da fachada que a história ganha personagens.
Uma casa, uma ferraria e a família Müller
Heinrich Müller nasceu em 21 de agosto de 1870. Casado com Karolina Kunz, teve cinco filhos: Emma, Albino, Emília, Osvino e Alma. Emma morreu ainda adolescente, enquanto os demais deixaram uma extensa descendência.
Foi naquele terreno que Heinrich estabeleceu também parte de sua vida profissional.
Ao lado direito da residência funcionava sua ferraria. Próximo dali havia ainda uma carpintaria, atividade complementar ao trabalho realizado no local. Conforme relato oral de Any Brenner, o carpinteiro era conhecido como “Alemão”.
O endereço guarda, portanto, mais do que lembranças da rotina doméstica. Trabalho e vida familiar dividiam praticamente o mesmo espaço.
A própria localização ajuda a revelar como a região se organizava naquele período. Estudos históricos apontam que a residência possivelmente tenha sido construída sobre os desdobros dos lotes 16 ou 17, no lado oeste das antigas Colônias de Bom Jardim, conforme mapa elaborado em 1870 pelo agrimensor Ernesto Müzzel.
Entre os antigos colonos relacionados ao lote 17 estava Peter Müller, possivelmente proprietário anterior da área.
E o sobrenome deixou marcas até na maneira como o lugar era conhecido.
A atual Rua São Leopoldo já foi chamada de “Müllersgasse”, expressão que pode ser entendida como “passagem dos Müller” ou “beco dos Müller”. Uma denominação que ajuda a dimensionar a presença da família naquela região de Ivoti.
Um encontro na carpintaria muda a história da casa
Foi também naquele ambiente de trabalho que outra família entrou na trajetória da residência.
Jorge Germano Velten, nascido em 1908, passou a trabalhar na carpintaria existente junto ao terreno. Ali conheceu Alma Müller, uma das filhas de Heinrich e Karolina.
Os dois se casaram e foram morar justamente na casa dos pais dela.
Quando Heinrich morreu, em setembro de 1936, Jorge e Alma permaneceram na residência junto com Karolina. Ali também cresceram as quatro filhas do casal: Any, Nelda, Dorli e Liane.
A casa atravessava, assim, uma segunda geração.
Alma morreu precocemente em 1959, aos 44 anos. Quatro anos depois, em 1963, morreu Karolina. Posteriormente, Germano casou-se novamente, com Alma Sander.
A partir daí, a família deixou a residência, que passou a ser alugada e permaneceu assim durante muitos anos.
Herança retorna às mãos dos descendentes
Uma nova etapa começou depois da morte de Germano, em 1986.
A propriedade foi deixada como herança para as quatro filhas. Uma delas, Any Carolina Velten, casada com Delmar Brenner, posteriormente adquiriu a parte pertencente às irmãs.
Dez anos depois, em 1996, a residência passou por um importante processo de restauração e voltou a ser destinada à locação.
Mas a ligação familiar com aquele endereço ainda teria mais um capítulo.
Em 2018, uma nova intervenção foi realizada no imóvel. Naquele momento, depois de décadas, a Casa Heinrich Müller voltou a ser ocupada por uma descendente direta da família: Jaqueline Roberta Brenner, filha de Delmar e Any e bisneta de Heinrich e Karolina.
Mais de um século depois da construção, uma nova geração retornava à casa iniciada pelo bisavô.
O que existia ao redor da casa
As memórias preservadas pela família também permitem imaginar uma paisagem bastante diferente daquela encontrada hoje na Rua São Leopoldo.
Segundo relatos da atual proprietária, nos fundos da residência havia galinheiro, chiqueiro e uma capunga. O imóvel também possuía uma placa de madeira com o ano de construção.
Outro vestígio permanece até hoje: um poço que originalmente fazia parte da propriedade. Com as mudanças na divisão dos terrenos ao longo das décadas, entretanto, ele atualmente está localizado no lote vizinho.
São elementos aparentemente pequenos, mas que ajudam a reconstruir aspectos da vida cotidiana das famílias que ocuparam aquele espaço.
De Casa Brenner a Casa Heinrich Müller
O reconhecimento oficial do valor histórico da construção veio em 2004.
Naquele ano, o imóvel foi tombado como patrimônio histórico e cultural de Ivoti pelo Decreto nº 078/2004. Na época, recebeu oficialmente a denominação de “Casa Brenner”.
A história do nome, entretanto, ainda mudaria.
Em 2020, os proprietários encaminharam ao Conselho Municipal de Patrimônio Histórico e Cultural de Ivoti um pedido para que a edificação passasse a ser chamada de “Casa Heinrich Müller”.
A mudança recuperou a ligação com o homem que construiu a residência em 1898 e foi seu primeiro morador, além de reforçar a relação da edificação com a trajetória da família Müller.
Patrimônio é também história de gente
A Casa Heinrich Müller integra a programação do Mês do Patrimônio Histórico de Ivoti, iniciativa que apresenta semanalmente, em conteúdos de texto e vídeo, locais e edificações relacionados à memória e à identidade do município.
Na semana anterior, a série abordou a história da Casa Amarela. Agora, os olhares se voltam para a residência da Rua São Leopoldo.
A proposta ajuda a mostrar que preservar um prédio histórico não significa apenas conservar paredes, telhados ou técnicas arquitetônicas.
No caso da Casa Heinrich Müller, preservar a construção também significa manter vivas histórias de quem nasceu, trabalhou, casou, criou filhos e atravessou diferentes momentos da vida naquele endereço.
Desde 1898, a cidade ao redor mudou. A rua mudou. As gerações mudaram.
A casa permaneceu.
Mais informações sobre o patrimônio e a programação cultural podem ser consultadas no site da Prefeitura de Ivoti. Confira também outras notícias de Ivoti no Portal Vale do Sinos.



