Marcelo Burgos afirma que Nem não pode ser considerado “chefão do tráfico” e que houve “midiatização” de sua prisão.
Da Redação redacao@novohamburgo.org (Siga no Twitter)
A intensa divulgação das ocupações de comunidades pobres do Rio de Janeiro por forças da segurança púbica é injustificada. É o que afirma Marcelo Burgos, professor e coordenador da área de Sociologia da Pontifícia Universidade Católica – PUC do Rio de Janeiro.
Ele ressalta que entende a intenção do governo do Rio em apresentar o traficante Antônio Bonfim Lopes, o Nem, como um “troféu”, vê exagero na cobertura da imprensa. “O interesse da mídia e a repercussão da prisão de um traficante do porte do Nem não é compreensível”, afirma.
Leia Mais
Traficante Nem defende UPPs e elogia secretário de Segurança do Rio
“Apesar de não ser um pé rapado, de ter domínio territorial [sobre a Favela da Rocinha], de controlar um volume razoável de dinheiro e de mercadoria [droga], não se pode considerá-lo um chefão do tráfico”, avalia o professor. “É claro que houve uma ‘midiatização’ da prisão dele.”
Michel Misse, professor de Sociologia e Antropologia da Universidade Federal do Rio de Janeiro – UFRJ e diretor do Núcleo de Estudos em Cidadania, Conflito e Violência Urbana – Necvu da mesma instituição, declara que o momento atual faz lembrar artigos da década de 1950 que criticavam a “aliança” entre imprensa e polícia para supervalorizar as prisões.
Segundo ele, a situação se assemelha aos tempos da República Velha, quando a hipervalorização dos presos buscava alcançar o reconhecimento da sociedade para o trabalho policial. “Desde àquela época já se identificava a tendência de tornar muito mais importante, inteligente e perigoso aqueles que eram capturados pela polícia”, considera Misse. “Já existia essa aliança entre a polícia e os veículos de comunicação, com suas editorias de polícia.”
Assunto foi destaque no
noticiário internacional
A ocupação das favelas da Rocinha e do Vidigal no Rio de Janeiro domina o noticiário há uma semana. Mesmo antes de as forças policiais subirem o morro, a prisão dos policiais que tentaram escoltar traficantes em fuga e a captura de Nem tiveram ampla cobertura da imprensa nacional.
O assunto também ganhou destaque internacional. Foi mostrado que o Rio investe para reforçar a segurança para receber dois megaeventos esportivos mundiais: a Copa do Mundo em 2014 e das Olimpíadas de 2016.
Isso já havia ocorrido no primeiro semestre do ano, quando as 13 favelas que formam o Complexo do Alemão, na zona norte do Rio de Janeiro, foram ocupadas por forças da segurança pública. “Essa aliança explica, em parte, a ênfase na divulgação da prisão de Nem, que era um traficante de varejo”, assinala o professor Misse. “O Nem já estava negociando com a Polícia Civil sua rendição.”
Informações de Agência Brasil
FOTO: Marino Azevedo / Governo do Rio de Janeiro
