
Por Álvaro Link
Presidente do Conselho de Administração da Sicredi Caminho das Águas
O paradoxo da prosperidade
Há um paradoxo interessante quando se observa prosperidade em algumas regiões. Existem comunidades assentadas sobre extraordinárias riquezas naturais, infraestrutura consolidada, empresas sólidas e boa capacidade econômica que, ainda assim, permanecem incapazes de construir um projeto consistente de desenvolvimento. Em contrapartida, há territórios muito mais modestos em recursos materiais que conseguem mobilizar pessoas, fortalecer instituições, criar oportunidades e prosperar de forma admirável.
Durante muito tempo, buscamos explicar essa diferença quase exclusivamente pelo capital financeiro. Ele é, sem dúvida, indispensável. Mas, sozinho, não explica por que algumas comunidades avançam enquanto outras permanecem estagnadas. A resposta parece residir em um patrimônio menos visível, porém igualmente decisivo, o Capital Social.
Tenho utilizado essa expressão em textos anteriores, e gostaria de, neste texto, ampliar a reflexão sobre o tema e a expressão Capital Social, porque considero importante distinguir dois conceitos que compartilham esse mesmo título, mas possuem significados completamente distintos.
Dois conceitos, um mesmo título
No Direito e na Contabilidade, capital social representa os recursos integralizados pelos sócios ou associados para constituir uma organização. É um conceito jurídico, econômico e patrimonial, indispensável para a existência de empresas e cooperativas.
A reflexão proposta aqui, entretanto, parte de outro significado. Trata-se do conceito desenvolvido pelas Ciências Sociais, que compreende o capital social como o patrimônio formado pela confiança, pelas redes de relacionamento, pela reciprocidade, pelo diálogo e pela capacidade de cooperação construída entre as pessoas.
É nessa perspectiva que proponho compreendê-lo como um verdadeiro Ativo Relacional. Um patrimônio intangível que não se registra em balanços patrimoniais, mas que influencia diretamente a capacidade de uma organização, de uma comunidade ou de um território construir desenvolvimento.
O patrimônio invisível
O capital financeiro pode ser medido, auditado e expresso em números. O Capital Social, ao contrário, manifesta-se na qualidade das relações. Ele cresce quando aumenta a confiança, quando os vínculos se fortalecem, quando as pessoas passam a compartilhar objetivos e quando instituições conseguem gerar pertencimento.
As relações humanas também produzem riqueza. Produzem ambientes favoráveis à inovação, ampliam a capacidade de resolver problemas coletivos, fortalecem instituições e criam condições para que projetos prosperem. Em muitos casos, é justamente esse patrimônio invisível que explica por que organizações, agrupamentos, iniciativas, projetos e comunidades semelhantes alcançam resultados tão diferentes.
Energia nas convergências
O capital social não nasce espontaneamente. Ele é cultivado. Cresce quando criamos espaços de encontro, ampliamos o diálogo, fortalecemos comunidades e estabelecemos relações pautadas pela confiança. Desenvolve-se quando pessoas, organizações e lideranças dedicam mais energia à construção de convergências do que à amplificação das divergências.
Isso não significa ignorar conflitos ou eliminar diferenças. Significa reconhecer que sociedades maduras conseguem construir objetivos comuns sem abrir mão da pluralidade de ideias.
Os encontros produzem uma transformação silenciosa, mas profunda. O isolamento tende a alimentar um olhar orientado pela escassez, no qual predominam reclamações, limitações e disputas. Já o diálogo desperta um olhar de abundância, capaz de revelar oportunidades, mobilizar talentos, estimular o engajamento e transformar boas intenções em projetos compartilhados. É nesse ambiente que o Capital Social floresce, se fortalece e se “capitaliza“.
Capital social e desenvolvimento territorial
Durante décadas, o desenvolvimento territorial foi associado principalmente à infraestrutura, aos incentivos econômicos, à disponibilidade de crédito e aos investimentos públicos e privados. Todos esses fatores continuam sendo fundamentais. Entretanto, dificilmente produzirão resultados duradouros onde inexistem confiança, articulação e capacidade de cooperação.
Territórios prosperam quando conseguem reunir seus protagonistas em torno de uma visão compartilhada de futuro. Empresas, produtores, universidades, escolas, entidades representativas, organizações da sociedade civil e poder público tornam-se mais capazes de construir soluções quando estabelecem relações permanentes de diálogo, confiança e corresponsabilidade.
Sob essa perspectiva, fortalecer o Capital Social deixa de ser apenas uma consequência do desenvolvimento. Passa a constituir um de seus principais métodos.
O cooperativismo como território de convergência
É nesse ponto que o cooperativismo revela uma de suas maiores contribuições para a sociedade. Especialmente no cooperativismo financeiro, o capital financeiro é indispensável para cumprir sua finalidade econômica. Contudo, por sua natureza societária, que é a de ser uma sociedade de pessoas, ele não representa um fim em si mesmo. Torna-se um instrumento para produzir aquilo que constitui seu patrimônio mais valioso, o Capital Social.
Ao promover participação, educação cooperativista, pertencimento, apoio e patrocínios a projetos, e confiança, fortalece as relações entre as pessoas e amplia sua capacidade de cooperação. Forma-se, assim, um ciclo virtuoso em que o capital financeiro fortalece o Capital Social e este, por sua vez, amplia a participação, impulsiona a confiança, a energia da união e cooperação e fortalece o próprio coletivo, as pessoas envolvidas e a comunidade.
As cooperativas financeiras ocupam uma posição singular nos territórios. Conectam associados, empresários, produtores, empreendedores, universidades, entidades representativas, lideranças comunitárias e poder público. Essa diversidade lhes confere legitimidade para atuar como um verdadeiro território neutro de diálogo, promovendo encontros, aproximando diferentes perspectivas e construindo convergências capazes de impulsionar o desenvolvimento territorial.
Mais do que instituições financeiras, tornam-se articuladoras de relações. E, ao fortalecerem essas relações, fortalecem também o Capital Social dos territórios onde estão inseridas.
O Ativo que transforma territórios
Vivemos um tempo em que indicadores econômicos ocupam o centro das decisões. Medimos patrimônio, faturamento, produtividade, crescimento e rentabilidade com precisão crescente. Tudo isso continuará sendo importante.
Entretanto, o desenvolvimento começa onde os indicadores ainda não conseguem medir: na qualidade das relações humanas. Antes dos investimentos, existem pessoas. Antes dos grandes projetos, existem encontros. Antes da cooperação, existe confiança.
O capital financeiro continuará sendo indispensável para impulsionar organizações e economias. Mas é o Capital Social, esse Ativo Relacional construído pela confiança, pelos diálogos, pelas convergências e pela capacidade de reunir pessoas em torno de propósitos comuns, que transforma recursos em desenvolvimento e territórios em espaços capazes de construir, coletivamente, um futuro mais próspero.
Os territórios mais prósperos não são, necessariamente, aqueles que acumulam mais capital financeiro. São aqueles que aprenderam a cultivar, proteger e ampliar o seu Capital Social.
O verdadeiro desenvolvimento não se inicie com mais recursos, mas com mais relações. Não comece pelo patrimônio que aparece no balanço, mas pelo patrimônio invisível que une pessoas, fortalece comunidades e transforma confiança em prosperidade compartilhada.
