Por Clay Schulze
Escritor e presidente do Centro Cultural 25 de Julho de Blumenau
Na coluna Hallo Heimat, Clay Schulze mostra como a batata, hoje inseparável da mesa alemã, deixou de ser uma raiz estrangeira para se tornar símbolo de sobrevivência, política agrária e memória cultural na Prússia de Frederico II.

Imagine a mesa de um almoço típico na Alemanha. Pratos como Kassler, Schweinebraten ou outras preparações à base de carne suína quase sempre chegam acompanhados por ela: a batata. Em purês, saladas, bolinhos, cozida ou assada, ela se tornou presença quase obrigatória, a ponto de parecer parte natural, antiga e indissociável da culinária germânica. A impressão, hoje, é de permanência: como se a batata sempre tivesse estado ali, ao lado do porco, como um par culinário destinado a atravessar séculos.
Mas a história foi bem diferente. A batata não nasceu na Europa Central, nem entrou de forma imediata na dieta dos povos de língua alemã. Sua presença na mesa germânica resultou de uma longa trajetória de circulação, adaptação, resistência e política de Estado. Antes de se tornar sinônimo de saciedade, comida de família e costume de domingo, a batata precisou atravessar oceanos, vencer desconfianças e encontrar espaço num mundo ainda dominado pelo pão e pelos cereais.
DOS ANDES À EUROPA: A MIGRAÇÃO DE UMA RAIZ
A batata nasceu nos Andes, em territórios que hoje correspondem sobretudo ao Peru e à Bolívia. Muito antes de chegar à Europa, já fazia parte da vida de populações indígenas que aprenderam a cultivá-la em altitudes elevadas e sob condições climáticas rigorosas. Quando os europeus a conheceram, portanto, ela não era uma novidade absoluta, mas um alimento com longa história, cercado por saber agrícola, seleção de variedades e uso cotidiano no mundo andino.
Foi a expansão espanhola no século XVI que levou o tubérculo para a Europa. Vinda da região andina após a conquista do império inca e a abertura das rotas coloniais entre a América do Sul e a Península Ibérica, a batata chegou primeiro à Espanha e, aos poucos, começou a circular por outras áreas do continente, como a Itália, os Países Baixos e a Inglaterra. Esse avanço, porém, foi lento. Durante muito tempo, a batata permaneceu mais ligada à curiosidade botânica, a experiências agrícolas restritas e a jardins do que ao cardápio popular.
Essa recepção hesitante não foi por acaso. Em grande parte da Europa, a alimentação seguia baseada no pão e nos cereais, e a nova raiz ainda inspirava desconfiança. Seu aspecto incomum, o cultivo pouco conhecido e a associação com plantas da família das solanáceas retardaram sua aceitação. A batata não conquistou espaço de imediato; avançou devagar, quase discretamente. Seu verdadeiro triunfo viria mais tarde, quando crises de abastecimento e sucessivas más colheitas mostraram que aquela raiz vinda dos Andes podia oferecer algo decisivo: resistência, produtividade e segurança alimentar.
O MUNDO EM QUE A BATATA GANHOU FORÇA
No século XVIII, a Alemanha ainda não existia como Estado unificado. O mundo germânico era formado por uma rede de principados, reinos, cidades livres e territórios ligados ao Sacro Império Romano-Germânico. Nesse cenário fragmentado, a Prússia se afirmava cada vez mais como uma das forças políticas e militares mais relevantes da Europa Central.
A sociedade prussiana era essencialmente agrária, e a alimentação dependia sobretudo dos cereais, em especial do pão. A estabilidade das colheitas era decisiva para a sobrevivência da população. Quando a produção de grãos fracassava, a fome deixava de ser um risco distante e passava a ameaçar o cotidiano. Para um Estado que queria manter exército, administração forte e capacidade de expansão, a fragilidade do abastecimento era um problema central. Foi nesse contexto que a batata começou a ganhar importância: não como alimento milagroso, mas como uma alternativa promissora a um sistema alimentar excessivamente dependente dos cereais.
FREDERICO II: ESTADO, ESTRATÉGIA E O CÁLCULO DA FOME
Frederico II governou a Prússia de 1740 a 1786 e entrou para a história sobretudo como um monarca militar, responsável por elevar o peso político e estratégico do reino na Europa. Mas essa imagem, sozinha, não basta para explicar a chamada ordem da batata. Frederico não foi apenas um rei de guerra. Foi também um governante atento à administração, à produtividade do território e à utilidade concreta das medidas de governo. Seu reinado combinou expansão militar com forte preocupação em organizar o Estado de maneira mais eficiente.
Dentro dessa visão, a agricultura ocupava lugar central. Um reino forte precisava de população alimentada, terras produtivas e capacidade de enfrentar crises sem colapsar. Quando o abastecimento era frágil, o problema não era apenas social: era também político e estratégico. Nesse contexto, a batata chamou a atenção de Frederico por oferecer vantagens muito objetivas. Adaptava-se melhor do que muitos cereais a certos tipos de solo, podia garantir boa produtividade e servia tanto para a alimentação humana quanto para a animal. Para um Estado pressionado por guerras, gastos e instabilidade, isso representava mais do que uma solução agrícola: era um instrumento de segurança.

KARTOFFELBEFEHL: NÃO FOI UM ATO ISOLADO, MAS UMA INSISTÊNCIA
A expressão “ordem da batata” pode dar a impressão de um único decreto solene, capaz de mudar de imediato o destino alimentar da Prússia. A realidade foi mais complexa. O termo reúne um conjunto de ordens, circulares e determinações emitidas por Frederico II ao longo de vários anos. Há referências a quinze Kartoffelbefehle, sendo a primeira de 1746, em meio à fome na Pomerânia. Entre essas medidas, o texto mais conhecido é o circular de 24 de março de 1756, dirigido aos funcionários e administradores da Silésia, com instruções para tornar o cultivo da batata compreensível, útil e acessível à população.
Esse detalhe muda a interpretação do episódio. Não se tratava de um gesto isolado, mas de uma política de difusão agrícola conduzida com insistência. As ordens não eram dirigidas apenas aos camponeses, mas antes de tudo à máquina administrativa do Estado. Cabia aos burocratas locais estimular o plantio, acompanhar sua expansão e demonstrar resultados. Havia cobrança, fiscalização e, em alguns casos, até exigência de registros e tabelas sobre cultivo e colheita. A batata deixava de ser apenas uma possibilidade e passava a se tornar objeto de acompanhamento administrativo.
Mas a política não se resumia à cobrança. Frederico compreendia que o problema não estava apenas em mandar plantar, e sim em fazer a população entender por que aquela cultura poderia ser útil. Por isso, as instruções também tinham um caráter prático. Era preciso explicar como cultivar a batata, em que tipo de solo ela rendia melhor, como deveria ser colhida e, sobretudo, como podia ser consumida. Em outras palavras, o Estado prussiano tentava não apenas introduzir uma planta, mas alterar hábitos alimentares. A chamada Kartoffelbefehl foi, ao mesmo tempo, ordem, fiscalização e esforço pedagógico.
ENTRE A ESTRATÉGIA E A MEMÓRIA: OS SOLDADOS NOS BATATAIS
Entre os episódios mais conhecidos da ordem da batata, nenhum se tornou tão marcante quanto a história dos soldados nos batatais. Segundo a tradição, Frederico II mandou plantar batatas em terras reais e ordenou que os campos fossem vigiados de forma ostensiva durante o dia. A intenção seria despertar a curiosidade dos camponeses: se havia guardas protegendo aquelas plantas, então algo de valioso devia existir ali. Durante o dia, os campos vigiados pareciam esconder algo precioso; à noite, a vigilância afrouxada permitia que a curiosidade fizesse o resto. Os tubérculos seriam roubados e levados para plantio nas propriedades particulares. A lógica da manobra era simples e engenhosa: transformar em objeto de desejo aquilo que o povo ainda recusava.
A razão para recorrer a esse tipo de expediente estava na forte resistência popular à batata. O problema não era apenas agrícola, mas cultural. Muitos camponeses desconfiavam de uma raiz pouco familiar, permaneciam ligados à segurança simbólica dos cereais e desconheciam o modo correto de cultivo e consumo. A simples ordem administrativa não bastava para mudar a mesa. Era preciso persuadir. Nesse contexto, a imagem dos soldados guardando os batatais passou a condensar a tentativa de tornar desejável aquilo que antes era visto com reserva.
NÃO BASTAVA PLANTAR: O CAMPO TAMBÉM PRECISAVA MUDAR
Seria tentador contar essa história como se a ordem de Frederico tivesse resolvido a questão de imediato. Não foi assim. A batata avançou devagar, em meio à desconfiança, à escassez e à força dos hábitos antigos. A rejeição não se explicava por simples teimosia. Havia, por trás dela, uma cultura alimentar profundamente enraizada no pão e nos cereais. Durante séculos, era em torno deles que se organizavam o plantio, o consumo e a própria ideia de sustento. A batata exigia outra lógica: outro modo de cultivar, outro modo de preparar, outro modo de pensar a comida.
Ainda assim, suas vantagens eram concretas demais para serem ignoradas por muito tempo. Em geral, a batata podia ser colhida em cerca de três a quatro meses após o plantio, um ciclo relativamente curto para os padrões agrícolas da época. Isso significava transformar terra em alimento em prazo mais rápido e, em determinadas condições, até permitir mais de uma colheita ao longo do ano. Em tempos de crise de cereais, essa característica fazia enorme diferença. O que antes parecia estranho começava a revelar sua utilidade mais imediata: colocar comida na mesa quando o sistema tradicional falhava. A batata não se impôs pelo prestígio, mas pela eficácia.
Mas nem mesmo essa eficácia bastava, sozinha, para transformar a agricultura prussiana. O avanço da batata também esbarrava no próprio sistema agrário do período. Em muitas regiões, as rotinas de cultivo continuavam presas à antiga organização dos campos e à lógica da agricultura de três campos (Dreifelderwirtschaft), que limitava a introdução de novas culturas em larga escala. Por isso, a difusão da batata dependia não apenas de ordens régias ou da necessidade trazida pela fome, mas também de mudanças mais profundas no uso da terra e na organização do trabalho agrícola. Foi quando o campo começou a mudar, com maior flexibilidade produtiva e avanço da rotação de culturas, que a batata encontrou espaço real para se consolidar.

MUITO ALÉM DA BATATA: A AGRICULTURA NO PROJETO DE FREDERICO II
O projeto de Frederico II para o campo prussiano não se limitava à promoção de uma cultura alimentícia. Havia uma visão mais abrangente de expansão da capacidade produtiva do reino. Seu governo apoiou a incorporação de novas terras aráveis por meio da drenagem de áreas pantanosas, estimulou a reorganização de zonas cultiváveis e apostou em diversas culturas especializadas. A batata foi a mais célebre dessas iniciativas, mas não a única.
Essa política de diversificação tinha lógica econômica e estratégica. Frederico incentivou o cultivo de lúpulo, tabaco, plantas tintórias, alcaravia e açafrão, além de fazer esforços em favor da sericicultura, isto é, da produção de seda. O objetivo era reduzir riscos, aumentar o aproveitamento da terra, ampliar receitas e tornar a Prússia menos vulnerável às flutuações de uma agricultura excessivamente concentrada em poucos produtos. O campo não devia produzir apenas o suficiente para sobreviver; devia produzir melhor, mais e de forma mais variada.
A agricultura era, para ele, instrumento de fortalecimento do Estado. Drenar pântanos, incorporar novas áreas, estimular culturas complementares e buscar maior racionalidade produtiva fazia parte da mesma visão que sustentava o incentivo à batata. A luta contra a fome era um componente central, mas não único: havia também a ambição de construir uma base material mais sólida para o poder prussiano. Vista em conjunto, a história ganha profundidade. A Kartoffelbefehl foi um episódio emblemático dentro de uma política mais extensa de reforma e intensificação agrária.
DA NECESSIDADE AO COSTUME
Com o passar do tempo, a batata deixou de ser uma alternativa recebida com reserva para se tornar presença estável na alimentação da Europa Central. Esse processo não aconteceu de uma vez. Primeiro veio a aceitação forçada pela necessidade. Depois, a repetição prática no cotidiano. Por fim, a incorporação silenciosa à memória culinária. O que um dia chegou como raiz estrangeira, observada com desconfiança, acabou entrando de forma tão profunda na vida doméstica que hoje parece ter pertencido desde sempre à tradição alemã.
Essa transformação ganhou também um valor simbólico. Até hoje, visitantes depositam batatas sobre a lápide de Frederico II, em Sanssouci, gesto que resume a força de sua associação com o tubérculo. Mais do que um detalhe curioso, essa memória remete ao papel decisivo que o rei exerceu ao tratar a agricultura como questão de Estado. Frederico compreendeu que um reino forte dependia não apenas de exércitos e fronteiras, mas de campos produtivos, abastecimento seguro e capacidade de enfrentar a escassez. Sua política agrária, marcada pelo incentivo a novas culturas, pela ampliação de áreas cultiváveis e pela busca de maior racionalidade na produção, deu à batata o ambiente necessário para deixar de ser novidade e se tornar alimento essencial. Nesse sentido, seu nome permaneceu ligado não apenas à difusão de um tubérculo, mas a uma visão de governo que soube transformar a terra em instrumento de estabilidade, sobrevivência e fortalecimento do Estado.
Talvez por isso a chamada ordem da batata continue tão fascinante. Ela foi menos um mandamento culinário do que um ponto de encontro entre política, agricultura, guerra, fome e memória. Séculos depois, esse percurso ainda parece sobreviver nas cenas mais simples: numa travessa de Kartoffelsalat servida no almoço de domingo, ao lado da carne, na mesa de uma família alemã; ou na casa de descendentes de imigrantes no Brasil, onde a batata segue como parte natural da refeição e da lembrança. Há algo de profundamente nostálgico nisso. O que um dia foi estratégia de sobrevivência tornou-se costume, afeto e herança — e, em alguma medida, cada colherada dessa tradição ainda carrega o eco distante da política agrária de Frederico II, Rei da Prússia.
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