
Amigos que preferem não ser identificados falam sobre detalhes como o precedente de suicídio que poderia ter influenciado empresária a matar e tentar tirar própria vida e a relação dela com a família.
Felipe de Oliveira – felipe@novohamburgo.org
Novo Hamburgo parou na semana passada assustada com os crimes cometidos pela empresária Roselani D'Ávila, 47 anos. O caso de repercussão nacional reascende uma das discussões mais presentes à sociedade contemporânea. Quanto valem os bens materiais em detrimento da vida?
Perturbada com as dívidas da família – que chegariam a R$ 2 milhões –, Roselani matou o marido, a irmã e a sobrinha com a justificativa de que os amava e não poderia deixá-los sofrer sem dinheiro. Em seguida, tentou o suicídio. No Hospital Municipal de Novo Hamburgo a empresária confessou os crimes à delegada Rosane de Oliveira, da Polícia Civil.
ENQUETE
Qual deve ser o destino da empresária Roselani D'Ávila
Amigos da família que preferem não ser identificados falaram ao Portal novohamburgo.org sobre a relação entre as irmãs e o sofrimento da empresária nos últimos meses.
Roselani não suportava a necessidade de desfazer-se de alguns de seus bens para pagar dívidas acumuladas com as empresas de calçado da família. Apartamento em Gramado, carros… Nos últimos meses não comia e não dormia mais preocupada com os problemas financeiros. Chegou a emagrecer 10 quilos.
Ainda internada e se recuperando dos golpes que desferiu contra o próprio pescoço, ela já foi indiciada por triplo homicídio. Tão logo receba alta, deve ser encaminha ao Presídio Feminino Madre Pelletier, em Porto Alegre. A pena em caso de júri popular pode variar de 36 a 90 anos de prisão.
Relação com a família

A relação de Roselani com as vítimas, o marido Flávio D'Ávila, 54 anos, a irmã Rosângela Radaelli Picinini de Freitas, 45, e a sobrinha Maria Francisca Freitas, 6, era a melhor possível. Pelo menos é assim que os amigos descrevem.
Um das amigos que pede anonimato costumava participar dos aniversários da menina. Segundo ele, Maria Francisca era muito ligada à Roselani, sua madrinha. Por outro lado, não “desgrudava” da mãe, nem mesmo para dormir na casa da tia.
Já um prestador de serviços das empresas da família diz que o marido assassinado não demonstrava perturbação com as dívidas. Pelo contrário. O ambiente era sempre de alegria quando Flávio D'Ávila o recebia.
Na carta que escreveu depois de assassinar o marido e antes ainda de fazer o mesmo com a irmã e a sobrinha, Roselani confirma a boa relação com a família:
“(…) Levo o Flávio pelo meu amor e acho injusto deixar ele com toda a carga sozinho. Minha irmã, porque também está infeliz e me sinto responsável por ela. A Maria Francisca é a minha vida. Sonhei em poder dar tudo para ela, mas até meu amor está fraco e tenho medo do sofrimento dela no futuro. (…)”
Suicídio do pai pode ter influenciado
“(…) Te admiro muito, pois sozinha criou teus três filhos e todos cresceram e fizeram algo na vida. (…)”
A frase direcionada à mãe na carta escrita por Roselani comprova a ausência do pai na família. Conforme informações dos amigos, ele teria se suicidado quando a empresária e a irmã eram adolescentes. Para a psicóloga Aline Tietbohl, se confirmada a hipótese de tentativa de suicídio, um possível trauma pela morte do pai pode ter influenciado a decisão da empresária de acabar com a própria vida para solucionar os problemas financeiros. Ela ainda aguarda, no entanto, pela conclusão do inquérito antes de fechar diagnóstico.
Entre os elementos que podem mudar a análise sobre o caso, segundo a especialista em psicologia clínica, está a hipótese de que Roselani D'Ávila tenha simulado o suicídio. O que dá vazão a essa possibilidade seria a pausa entre a morte do marido, assassinado na madrugada de segunda para terça-feira, e a morte da irmã e da sobrinha, quase 24 horas depois. “No caso de uma doença psicótica ela na teria condições de passar esse tempo como se nada tivesse acontecido. Saído para trabalhar, levado a menina para lanchar…”, explica a psicóloga.
Promotoria não descarta crime passional
A hipótese ventilada pela psicóloga Aline Tietbohl sobre outro motivo que não uma doença psicótica para o crime encontra guarida também na Promotoria de Justiça. O promotor Eugênio Paes Amorim ainda não descarta a possibilidade de crime passional, por exemplo. Tanto é que pediu exame de DNA das vítimas para confirmar a paternidade de Maria Francisca. Só depois do resultado, começa a firmar sua posição na condição de acusador.
Na manhã de quarta-feira, 15 de abril, quando os crimes foram descobertos, uma das primeiras linhas de investigação iniciadas pela polícia foi justamente a de ligação amorosa entre Flávio e Rosângela. Maria Francisca poderia ser fruto de uma suposta traição e, portanto, também alvo de Roselani. Com a descoberta das cartas escritas pela empresária essa hipótese perdeu força. O pai da menina, José de Freitas, médico obstetra, manifestou descontentamento com a medida adotada por Amorim.
Sistema econômico é o vilão, diz sociólogo

O sociólogo Paulo Albuquerque (foto) entende que o caso da empresária hamburguense cristaliza um dos múltiplos sintomas de anomalia do sistema capitalista desenfreado. O professor da Universidade Federal do Rio Grande do Sul – Ufrgs e doutor em sociologia atribui ao modelo econômico a culpa pela crise ética pela qual passa a sociedade contemporânea. “O 'homem endividado' ou a 'dívida' é a expressão do curto-circuito na pretensão de uma sociedade que tem no mercado sua verdade maior.”
Albuquerque acredita que para explicar o comportamento violento a partir da pressão do sistema econômico é necessária uma reflexão de fundo, que vai além da simplificação apenas de recorte moral. “O ocorrido em Novo Hamburgo demonstra como a barbárie está ao nosso lado. Como o desmantelamento das políticas públicas de bem-estar se fazem a partir de uma lógica de 'menos Estado e mais Mercado'”, argumenta.
“O mal-estar social e o descrédito das instituições se apresentam também no aumento da criminalidade juvenil; erosão dos vínculos sociais solidários; desemprego; e incerteza. Vivemos uma 'desresponsabilização' coletiva que multiplica processos de exclusão.”
E como resolver essas anomalias? Com saídas coletivas. Não individuais. É o conselho de Paulo Albuquerque. “A ordem social proposta pelo mercado se funda na violência e no perder de vista a questão essencial da vida humana – o direito a ser. Por isso o cidadão se retrai para uma passividade generalizada e completamente individualizada.”
“Ética não trata particularmente de certos valores do bem e do mal. É critério de valor e criador da vida. Não pode ser entendida simplesmente como o cumprimento de um conjunto de normas.”
