A greve do magistério estadual, iniciada nesta segunda-feira, revela um perigoso clima de enfrentamento político. Yeda Crusius quer acabar com o Plano de Carreira dos professores e nivelar todos os salários pelo que deveria ser o piso, o salário mínimo dos mestres.
Yeda apostou na incapacidade da categoria se mobilizar no final do ano, há pouco mais de 30 dias para o fim do ano letivo. Coloca os professores num brete: cansados do longo ano letivo, muitos não querem entrar janeiro a dentro recuperando aulas. A pressão dos pais para a conclusão do ano letivo também é um dos trunfos de Yeda para quebrar a espinha do movimento sindical.
Entretanto, quando dói a gente reclama. E é o que está acontecendo com o magistério estadual. O Cepers encaminhou a discussão sobre o projeto para a base na semana passada e de modo algum esperava a indicação unânime dos núcleos pela paralisação. Em Novo Hamburgo, uma assembléia de professores na Escola Vila Becker fez a escola aderir ao movimento nesta segunda-feira, 17, pela manhã. Em seguida, o 25 de julho paralisou e logo a mobilização se espalhou por outras escolas. O 25 estava nesta terça-feira, 18, com 80% de adesão e a Wolfram Metzler com 50%.
A secretária da Educação, Mariza Abreu, também se disse surpresa com a greve, mas foi jogo de cena, afinal ainda antes de encaminhar o projeto do piso para a Assembléia Legislativa, o Governo do Estado encaminhou determinação do corte de ponto dos professores para faltas não justificadas. Ou seja, o Governo do Estado esperava sim pela greve. E ratificou em ofício às escolas o corte de ponto a partir da segunda-feira, proibindo o acesso dos professores grevistas ao ambiente escolar e registrando em ata todas as atividades relativas a mobilização dos professores.
O clima de indignação entre os professores é muito grande e este é o motor da forte adesão. Paulo Renato Dapper, presidente do 14º Núcleo do Cepers, explica que os professores não aceitam a possibilidade de achatamento salarial proposta por Yeda Crusius. O parágrafo 2º do projeto de lei diz que todas as chamadas vantagens serão absorvidas no piso, ou seja, na prática extingue-se os triênios, as progressões por avaliação e por formação (pós-graduação). “Não haverá redução dos salários, mas achatamento, cortando qualquer possibilidade de crescimento na carreira”, diz Dapper.
O professor explica que a categoria “quer a implantação na íntegra do projeto do Governo Federal que institui o piso nacional”. Diz que o projeto do Governo Federal contempla problemas importantes, com a criação da data-base em janeiro para a reposição da inflação. “Esta é uma conquista muito importante. Eu não lembro de ter recebido um reajuste que contemplasse simplesmente as perdas inflacionárias sem que os professores não tivessem que fazer uma greve”, lembra ele.
Dapper também apontou a contradição do Governo Estadual, que entrou na Justiça contra o Piso Nacional e agora utiliza este projeto como argumento de adaptação para o seu próprio. “O projeto federal prevê que, se o Estado não tem como pagar a complementação para que a categoria atinja o piso, a União repassará os recursos”, diz ele, explicando que se Yeda entra na Justiça contra o projeto nacional, ela está dizendo que tem dinheiro para pagar.
Recuo – Na segunda-feira mesmo a governadora Yeda Crusius retirou o regime de urgência do projeto e nesta terça-feira ao meio-dia, uma reunião entre a direção do Cepers e deputados estaduais acordou que os parlamentares não irão votar, pelo menos em 2008, o projeto encaminhado pela governadora. Professores da rede estadual em Novo Hamburgo falam em avaliar o movimento na manhã desta quarta-feira. “Retirando o projeto já podermos voltar a sala de aula”, disse uma professora, que se manifestou “muito preocupada com a atitude autoritária, despreparada, da governadora”.
