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Por Pe. João Renato Eidt
Diretor do Centro de Espiritualidade Cristo Rei – CECREI
O Advento é o tempo do ainda não, o tempo da espera fecunda. A Igreja nos convida a vigiar com o coração desperto, como quem acende uma luz no meio da noite, sabendo que o amanhecer se aproxima. A cada vela da coroa do Advento, recordamos que as trevas não têm a última palavra: há uma promessa em gestação, um Deus que se faz pequeno e caminha no compasso da nossa história.
Esperar o Natal não é apenas recordar o nascimento de Jesus em Belém, mas acolher o mistério de um Deus que continua vindo — nas nossas fragilidades, nas relações feridas, nos lugares onde o mundo parece cansado de esperar. O Advento ensina que a esperança cristã não é passiva: é preparar o coração como Maria preparou o seu ventre, é abrir espaço para que a Palavra se faça carne também em nós.
Neste tempo de preparação, somos chamados a desacelerar o ritmo, a silenciar o coração e a escutar os passos de Deus que se aproximam com ternura. É o momento de purificar o olhar, de renovar os sonhos e de permitir que a fé reacenda em nós a confiança de que a história está nas mãos de um Pai amoroso. O Advento é o tempo da vigilância amorosa, onde cada gesto simples — uma oração, um perdão, uma presença atenta — se torna caminho para acolher o Salvador.
Além da tradição litúrgica, o Advento é uma escola de vida espiritual. Ensina-nos a viver à maneira de Maria e de João Batista: com fé disponível, com coragem para indicar a Luz e com a humildade de quem sabe que o essencial vem de Deus. Esperar o Senhor é aprender a reconhecer os seus sinais na vida de todos os dias — nas pequenas alegrias, nas cruzes diárias e na certeza de que Ele jamais deixa de vir ao nosso encontro.
E então chega o Natal, e o invisível se torna visível. O Deus infinito se revela num Menino, envolto em panos, dependente do carinho humano. É o milagre da ternura divina: no rosto de uma criança, Deus nos fala de humildade, de paz e de um amor que se deixa acolher. O presépio nos lembra que não há lugar pequeno demais para que Deus habite, nem coração distante demais para ser alcançado por sua luz.
Celebrar a Encarnação é perceber que Deus não permanece distante ou indiferente às dores do mundo. Ele vem morar conosco, Emmanuel, para partilhar as alegrias simples, as lágrimas escondidas e o pão da nossa mesa. A presença do Verbo feito carne torna sagrado o cotidiano e nos revela que o Reino começa nas coisas pequenas: na escuta, na compaixão, na fidelidade silenciosa de quem ama sem medir.
Belém nos ensina também o estilo de Deus: Ele entra na história sem barulho, nas margens e na pobreza, rompendo a lógica do poder e da força. No silêncio da noite, nasce o Salvador que não impõe, mas propõe; que não domina, mas serve. O Natal é, portanto, um convite a rever nossos modos de viver e a reconhecer que a verdadeira grandeza está em se fazer dom, em partilhar a vida como Jesus o fez.
Celebrar o Natal é deixar que essa luz nasça novamente dentro de nós. É reconhecer que cada gesto de amor, cada reconciliação, cada cuidado com quem sofre é uma nova manjedoura onde Cristo deseja repousar. Ele vem, e vem todos os dias, para transformar o que é comum em sagrado, o que é escuro em claridade, o que é medo em confiança. E, transformados por essa presença, tornamo-nos também portadores da luz: envia-nos o Menino para que sejamos presépios vivos, sinais visíveis de que Deus continua habitando entre os homens.
