Debate no Estação Hamburgo resgata os bastidores da emancipação de Novo Hamburgo, o peso do positivismo gaúcho e a reorganização política no Vale do Sinos ao longo do século XX
Às vésperas dos 99 anos de emancipação de Novo Hamburgo, celebrados em 5 de abril, o programa Estação Hamburgo, da Vale TV, promoveu um mergulho na história política da cidade e da região do Vale do Sinos. No debate exibido no dia 17 de fevereiro de 2026, o apresentador Rodrigo Steffen recebeu os historiadores e pesquisadores Rodrigo Luís dos Santos e Paulo Daniel Spolier para analisar o contexto da emancipação, as articulações entre Novo Hamburgo, São Leopoldo e Campo Bom e os reflexos estaduais e nacionais na política local.
Logo no início do programa, o apresentador Rodrigo Steffen lembrou da referência de 400 dias para o Centenário de Novo Hamburgo, no próximo dia 1º de março, numa contagem regressiva que a Vale TV, o Portal valedosinos.org e O Vale realizam, de várias formas, desde 1.000 dias para 5 de abril de 1927.
O encontro destacou como, entre 1924 e 1927, disputas partidárias, alianças religiosas e interesses econômicos moldaram o processo que levou o então segundo distrito de São Leopoldo à condição de município. Também foram debatidos os impactos da Era Vargas, do integralismo e da redemocratização de 1946 na reorganização do poder político na cidade.

As raízes da emancipação
O debate recordou que, em 1924, durante as comemorações do centenário da imigração alemã — marco também celebrado em São Leopoldo — já estavam lançadas as bases do movimento emancipacionista em Novo Hamburgo. Naquele período, a localidade reunia Novo Hamburgo (centro), Hamburgo Velho e Campo Bom, todos pertencentes ao segundo distrito de São Leopoldo.
Em 1925, uma comissão formada por lideranças como Vicente Hennemann e Gustavo Vetter protocolou pedido de emancipação junto ao Conselho Municipal de São Leopoldo. A proposta, no entanto, enfrentou resistências internas e acabou rejeitada. Apenas o conselheiro Pedro Adams Filho votou favoravelmente à iniciativa.
Segundo os debatedores, 1926 foi um ano decisivo. A política estadual vivia rearranjos importantes, com a aproximação entre o Partido Libertador (PL) e o Partido Republicano Rio-Grandense (PRR). Em Novo Hamburgo, essa divisão também refletia diferenças religiosas: republicanos majoritariamente católicos e libertadores ligados à comunidade luterana.
A análise destacou que a política local não pode ser compreendida isoladamente. Ela estava profundamente conectada ao cenário estadual, especialmente à influência de figuras como Júlio de Castilhos, Borges de Medeiros e, posteriormente, Getúlio Vargas.
Campo Bom e o jogo de xadrez político
Um dos pontos mais curiosos debatidos foi a criação do décimo distrito de São Leopoldo, em 1926, desmembrando Campo Bom do segundo distrito. A medida foi interpretada como uma estratégia política para enfraquecer o movimento emancipacionista hamburguense.
Campo Bom, que só se emanciparia décadas depois, manteve ao longo do período forte relação com lideranças locais e regionais, especialmente a família Vetter. O episódio revelou como decisões administrativas eram, na prática, movimentos estratégicos para preservar forças econômicas e eleitorais.
Os debatedores também ressaltaram como a rede de relações familiares, empresariais e religiosas formava uma teia complexa de poder. Casamentos entre famílias influentes, sociedades comerciais e vínculos partidários criavam alianças que atravessavam décadas.
República positivista e centralização do poder
Outro eixo do debate foi a influência da chamada “República Positivista Gaúcha”, modelo político consolidado no Rio Grande do Sul a partir do final do século XIX. Inspirado nas ideias de Auguste Comte, o positivismo defendia um Executivo forte e um Legislativo com papel mais consultivo.
Para os historiadores, essa estrutura moldou o modo de fazer política no Estado e influenciou diretamente o cenário nacional com a ascensão de Getúlio Vargas em 1930. A centralização do poder, as intervenções e a nomeação de prefeitos — os chamados “prefeitos biônicos” — marcaram o período.
Em Novo Hamburgo, nomes como Odon Cavalcanti ganharam destaque como representantes desse modelo de gestão. Durante sua administração foram gestadas importantes iniciativas estruturais e sociais, que ajudaram a consolidar o crescimento urbano e industrial da cidade.
Integralismo e novas forças políticas
O programa também abordou a forte presença do integralismo na região a partir da década de 1930. A Ação Integralista Brasileira, liderada por Plínio Salgado, encontrou terreno fértil em cidades com forte identidade cultural e comunitária.
Em Novo Hamburgo e em municípios vizinhos, lideranças integralistas chegaram a ocupar cargos legislativos e executivos. Mesmo após a proibição dos partidos durante o Estado Novo, muitos desses quadros retornaram à política no pós-1945, agora vinculados a outras siglas, como o Partido de Representação Popular (PRP).
1946: uma nova cidade?
Para os participantes, a redemocratização de 1946 representou um divisor de águas. O voto secreto e a ampliação do eleitorado transformaram o cenário político. Se em 1929 apenas cerca de 10% da população votava em Novo Hamburgo, nas décadas seguintes a participação popular cresceu de forma significativa.
Ao mesmo tempo, houve uma transição do protagonismo empresarial direto para uma política mais profissionalizada. Se no período da emancipação os principais líderes eram empresários e comerciantes que acumulavam poder econômico e político, no pós-guerra surgem figuras com trajetória política mais estruturada.
Essa transformação marcou o início de uma “nova Novo Hamburgo”, mais urbana, industrial e politicamente plural.
Memória como patrimônio coletivo
Ao longo do programa, também se destacou a importância do acervo fotográfico e documental da cidade, que preserva imagens da emancipação, das primeiras administrações e dos momentos decisivos da história local. Para os debatedores, investir na memória é fortalecer a identidade da comunidade.
À medida que Novo Hamburgo se aproxima do centenário, compreender suas origens, conflitos e conquistas torna-se essencial para projetar o futuro da cidade e do Vale do Sinos. E o Estação Hamburgo deixa um registro de muitos dos bastidores deste momento, em um programa que merece ser assistido e compartilhado.
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O Estação Hamburgo é um programa exclusivo da Vale TV. Exibido ao vivo, de segunda a sexta-feira, das 20h às 21h, o programa reúne convidados em uma bancada de debates que analisa temas de interesse público. Desde 2015, o Estação Hamburgo se consolidou como um espaço plural e democrático, voltado à comunidade, com pautas que abrangem política, cultura, sociedade e as principais pautas da região.
O Estação Hamburgo tem o patrocínio de Calçados Beira Rio 50 anos, Construtora Concisa, JG Serviços, Merkator Feiras e Eventos e Universidade Feevale.
Debate realizado no dia 17 de fevereiro de 2026 no programa Estação Hamburgo, apresentado por Rodrigo Steffen.

