Fundada em Portão, em 1926, a A.P. Müller chega aos 100 anos com planos de expansão. O curtume projeta aumentar a produção em 40% em 2027 e trabalha com a meta de dobrar o faturamento nos próximos três anos.
A estratégia envolve o avanço de produtos de maior valor agregado, especialmente couros mais sofisticados, e mantém o curtimento vegetal como um dos principais direcionamentos do negócio.
A empresa atua exclusivamente no mercado internacional desde 1998 e chega ao centenário sob o comando da terceira geração da família Müller. Cezar Müller, neto do fundador Arthur Pedro Müller e filho de Paulo Müller, está à frente do negócio. A quarta geração também já integra a gestão, com Artur Müller, filho de Cezar.
A comemoração dos 100 anos foi realizada em 3 de setembro, em Novo Hamburgo, reunindo familiares, colaboradores, clientes, fornecedores e parceiros da empresa.

De uma oficina artesanal ao mercado internacional
A história da A.P. Müller começou em 1926, quando Arthur Pedro Müller e a esposa, Martha Lydia Müller, fundaram o curtume em um galpão de 132 metros quadrados ao lado de casa, em Portão.
Antes disso, Arthur havia trabalhado como aprendiz em curtumes da região. Os primeiros cem couros da empresa foram curtidos manualmente, em um processo baseado em ferramentas simples e trabalho artesanal.
Na segunda geração, com Paulo Müller, a empresa iniciou um processo de industrialização, com a incorporação das primeiras máquinas, o desenvolvimento de produtos, a abertura de mercados e o início das exportações.
A partir da década de 1980, com a chegada da terceira geração, novos investimentos foram realizados e a empresa avançou na verticalização da produção.
Na década seguinte, mudanças no mercado e o aumento da concorrência internacional levaram a uma revisão da estratégia. Em 1998, a A.P. Müller deixou de atuar no mercado interno e passou a trabalhar exclusivamente com exportações.
Para Cezar Müller, os relacionamentos construídos ao longo da trajetória tiveram papel importante no desenvolvimento da empresa.
“Construímos relacionamentos duradouros com nossos clientes. Consolidamos uma rede de fornecedores, prestadores de serviços, agentes, representantes comerciais e principalmente uma equipe de colaboradores comprometidos com nossos objetivos, pois sem um time forte não se chega a lugar nenhum”, afirma.
Curtimento vegetal permanece no centro da estratégia
Utilizado pela empresa desde a fundação, o curtimento vegetal volta a ocupar posição central na estratégia para os próximos anos.
O processo utiliza taninos naturais no tratamento da pele, matéria-prima proveniente da indústria de alimentos. O couro produzido é utilizado em itens como cintos, bolsas e outros artefatos.
Atualmente, a estratégia da A.P. Müller para esse segmento está concentrada no ecoVEG, linha de couros com curtimento vegetal que, segundo a empresa, tem a sustentabilidade, a rastreabilidade e a economia circular entre seus pilares.
Para Artur Müller, representante da quarta geração da família, a retomada desse foco aproxima os planos para o futuro das origens do negócio.
“Há cem anos, meu bisavô começou esse curtume com curtimento vegetal. Não por estratégia de mercado, não por posicionamento. Era o que existia. Era o ofício. Hoje eu olho para trás e vejo que a direção que estamos procurando estava no começo da nossa própria história”, afirma.
Quarta geração participa da gestão
A empresa também busca conciliar os processos desenvolvidos ao longo de um século com novas tecnologias aplicadas à indústria.
Segundo Artur, a proposta não é abandonar as características naturais do couro, mas utilizar os avanços tecnológicos para aprimorar a produção.
“Essa variação é justamente aquilo que nenhum concorrente do couro consegue reproduzir. Nenhuma máquina fabrica singularidade. Nós não devemos negar essa origem. Nós devemos aprender a aproveitá-la ao máximo”, diz.
Para ele, o próximo ciclo da empresa passa mais pela qualidade do processo do que pelo aumento da velocidade de produção.
“O próximo salto não é fazer mais rápido. É fazer melhor. É voltar o olhar para o processo da forma mais artesanal possível dentro de um contexto industrial”, afirma.
Um século depois, a A.P. Müller permanece instalada no mesmo local de Portão onde iniciou suas atividades. Com a terceira geração no comando e a quarta participando da gestão, a empresa inicia o novo ciclo com planos de ampliar a produção e o faturamento e manter o mercado internacional como foco de atuação.