A cada vitória na Fórmula 1, Ayrton agarrava a bandeira do Brasil nas mãos e a fazia tremular. Por breves instantes, milhões de brasileiros sentiam-se imbatíveis
Tricampeão mundial, Ayrton Senna da Silva, paulistano nascido em 21 de março de 1960, acumulou 41 vitórias e 65 pole positions na Fórmula 1.
Do kart para as categorias Fórmula, na Europa, foi um salto natural. Tudo começou em 1981. Ayrton viajou para a Inglaterra para competir na Fórmula Ford 1600 pela Van Diemen. Tinha a autorização da família para ir, desde que voltasse logo. Pilotar carros – apesar de todo o incentivo moral e financeiro do pai, não era profissão, era hobby. Em pouco tempo, o talentoso piloto foi aclamado como prodígio pelos ingleses e venceu doze campeonatos.
Em 1982, o piloto retornou à Inglaterra. Dedicado à carreira em tempo integral, pisou como um furacão em mais um degrau rumo a Fórmula 1 – a F 2 000. Venceu, conquistou a pole position e as voltas mais rápidas nas seis primeiras corridas. Os títulos começaram a virar rotina. No total, foram vinte vitórias, das vinte e oito corridas, até hoje um feito único na F2000. Seu desempenho no autódromo de Silverstone fez com que os ingleses batizassem o circuito de Silvastone.
Repetindo o estilo fulminante da F Ford e F 2 000, Ayrton passou à Fórmula 3, o último pit stop antes da F1. Venceu na chuva, venceu sem freios, fez pole position e voltas mais rápidas nas nove primeiras corridas do calendário, garantindo mais um título inglês. Foi ao pódio em 13 das 21 corridas. Harry da Silva – como era chamado pela imprensa local que teimava em não se acostumar com a difícil pronúncia do nome Ayrton- era imbatível. Nas pistas, seu caráter e estilo invocavam alguma coisa revelada pela natureza, entregue a si mesma.
Em 1984, Ayrton finalmente ingressou na elite do automobilismo mundial. Precedido por um recorde assombroso de triunfos, era normal, portanto, que chovessem convites para testar carros da Fórmula 1. Toleman, Lotus, McLaren, Williams. O primeiro show, ao volante de um Toleman –Hart – de motor menos potente, um teste de fogo para seu perfeccionismo, foi no GP de Mônaco. Largou em 13º, embaixo de chuva e, antes de completar a primeira volta, estava em 9°. Na sétima volta, passou ao sétimo lugar. Na trigésima, ao segundo. Estava prestes a ultrapassar o líder Alain Prost quando o diretor da prova encerrou a corrida por causa do mau tempo. Foi em Mônaco que o mundo descobriu Ayrton Senna da Silva.
A primeira vitória na Fórmula 1 só viria em abril de 1985, no GP de Portugal, outra vez embaixo de chuva. Um ano depois, no GP de Detroit, dentro do cockpit de uma Lotus preta e dourada, Ayrton espiou pelo espelho retrovisor os franceses Laffite e Prost, em segundo e terceiro lugares, respectivamente, alguns metros antes de receber a bandeirada na pista – mais uma vez – molhada. Um dia antes, o Brasil tinha sido eliminado pela França, na Copa do Mundo no México. Ayrton apanhou a bandeira do Brasil ao passar nos boxes e fez a volta da vitória, pela primeira vez, exibindo o pano verde-e-amarelo, gesto que repetiria até o final da carreira.
Poucos meses depois, outra bandeirada na Bélgica, também com muita água na pista. O “Rei da Chuva”, como já era conhecido, tirava no braço a diferença em relação aos motores mais potentes até conseguir uma vaga na McLaren e virar um incômodo parceiro de Prost na escuderia, em 1988. Foi com a Mclaren, neste mesmo ano, que Ayrton conquistou o sonhado título mundial, no GP do Japão, em Suzuka, sob a famosa chuva que havia se tornado sua aliada. O carro morreu na largada. De primeiro, Ayrton foi parar em 14° lugar. Em uma descida, fez a McLaren pegar no tranco e saiu voando, realizando o que parecia impossível. Pulou para a oitava posição ao iniciar a segunda volta. Na 19ª, alcançou o terceiro posto e, finalmente, assumiu a ponta na 27ª volta , deixando Prost para trás. O bicampeonato também seria conquistado em Suzuka, em outubro de 1990, num duelo entre Senna e Prost que não passou dos 800 metros, e terminou na primeira curva.
Em março de 1991, ficou sem a primeira e a segunda marcha, pouco depois não engatava mais nenhuma, ficando apenas com a sexta marcha. Ayrton foi obrigado a fazer um esforço sobre-humano para não deixar o carro morrer nas curvas de baixa velocidade, na pista molhada de Interlagos, em São Paulo. Ganhou, mas teve espasmos musculares nos ombros e pescoço e não conseguiu sequer chegar ao box. A expressão do herói extenuado, mas vencedor, quase imortal, talvez seja uma das mais marcantes da carreira. O tricampeonato, também conquistado no Japão, em 1991, revelou ao mundo um dos valores mais prezados do herói: a amizade. O austríaco Gehrard Bergher havia assumido a pole, como companheiro de escuderia de Ayrton. O brasileiro vinha logo a seu lado, garantindo que Nigel Mansell ficasse para trás, na segunda fila. Mansell perdeu os freios e piruetou-se pela área de escape. Ayrton Senna, liderando a pontuação da temporada, já era tricampeão. Podia ter acompanhado Berger, mas ultrapassou-o, suave e felinamente. Na última volta, o brasileiro reduziu a velocidade e deixou que Berger vencesse sua primeira corrida na McLaren. Era uma maneira de premiar o austríaco pelo trabalho de equipe. Afinal, Berger partira na frente. “Berger fez uma bela corrida e merecia a vitória tanto quanto eu” reconhecia Ayrton. Três anos depois,em 1994, correndo pela Williams no GP de San Marino, na Itália, no dia 1º de maio, Ayrton chocou-se contra um muro de concreto a mais de 300 km por hora. Foi no sétimo giro da curva Tamburello. Foi a sua 65ª pole position. Poderia ter sido a 42ª vitória na Fórmula 1 e a 39ª volta da vitória com a bandeira brasileira tremulando no cockpit. E naquele 1º de maio de 1994 a vitória não veio. O laudo do hospital Maggiore, em Bolonha, foi implacável: Ayrton Senna da Silva, 34 anos, brasileiro, piloto de corridas, morreu. E os brasileiros nunca mais tiveram um piloto à altura. Fonte: Portal Ayrton Senna
