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Economia – Crise na América Latina: falta perspectiva continental

EditorPor Editor9 de abril de 20095 Mins Leitura
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Baixos preços das matérias-primas e menores remessas de divisas afetam a América Latina. É necessária uma perspectiva continental, comenta o especialista Dirk Messner em entrevista à Deutsche Welle.

A crise financeira e econômica mundial pinta um futuro negro. Tanto os países industrializados quanto as economias emergentes sofrerão os impactos, e ainda mais os países em desenvolvimento. Segundo cálculos do Banco Mundial, deverá haver entre 50 e 100 milhões de pobres a mais no mundo. O Banco Mundial define como pobre alguém que ganha menos de 1,25 dólar ao dia.

A Deutsche Welle conversou com o diretor do Instituto Alemão de Política de Desenvolvimento (DIE), Dirk Messner, sobre os impactos da crise nos países emergentes e em desenvolvimento.

Os impactos evidentes da crise serão o aumento da mortalidade infantil, especialmente na África Subsaariana. O comércio mundial terá redução de 9% e não será possível um crescimento econômico baseado na exportação de matérias-primas. Além disso, as remessas de divisas por migrantes diminuirão, como também os investimentos nos mercados financeiros.

Matérias-primas baratas e menos remessas

O fator que mais afetará a América Latina será a diminuição dos preços das matérias-primas, pois “foi precisamente nisso que se especializou a maioria dos países latino-americanos”, disse Messner. A isso se soma o fato de o volume de exportações ter diminuído.

Para países como Honduras e Guatemala, onde a remessa de dinheiro da população que mora no exterior representa 40% da entrada de divisas, é uma catástrofe o fato de as pessoas que trabalham nos Estados Unidos perderem o emprego. “O fluxo de remessas diminuiu”, afirmou Messner, que trabalhou como assessor de alguns governos da região.

O fato de os países que acolheram imigrantes estarem “convidando” os estrangeiros a ir embora é contraproducente para as economias do país receptor. “Para não afetar ambas as economias”, explicou Messner, “uma saída para esse aspecto da crise seria tentar manter estável o número de trabalhadores estrangeiros nas economias dos países industrializados”.

Para tal, a Europa precisaria de regras mais liberais quanto ao direito de trabalho dos estrangeiros. “Mas trata-se de um tema muito sensível numa situação em que o desemprego na Alemanha ou Espanha está aumentando rapidamente”, ressalvou ele.

Perspectivas melhores?

Quanto ao fato de a América Latina ter melhores perspectivas de superar a crise do que em décadas anteriores, Messner comentou: “A moeda tem dois lados. No tocante à inflação e ao crescimento das últimas duas décadas, a situação macroeconômica na maioria dos países latino-americanos está melhor agora que há 20 anos. As instituições estão mais fortes e, portanto, a situação interna, como também a institucional e econômica estão melhores do que eram no passado. O outro lado da moeda é que a situação da economia mundial é a pior dos últimos 80 anos”.

E os pacotes de medidas?

Segundo o especialista, os países industrializados investem mais ou menos 2% da produção nacional em pacotes de estímulo à economia. Na América Latina, esse índice é bem menor, explicou. Sendo assim, os impactos de tais pacotes também são bem menores no subcontinente.

Na opinião de Messner, a América Latina teria que fazer muito mais para fomentar seu desenvolvimento. Isso implicaria investir 1,5% a 2% do Produto Interno Bruto (PIB) para atenuar os efeitos da crise, “algo que não está sendo feito”, explicou.

Cooperação internacional é fundamental

Diante da crise e da baixa no mercado de matérias-primas, resta saber como os países latino-americanos poderiam destinar mais recursos para salvar suas economias. Para Messner, “a cooperação com os países industrializados é muito importante, porque – para alguns países latino-americanos – o acesso aos mercados financeiros é muito difícil”.

“Os empréstimos do Fundo Monetário Internacional ou do Banco Interamericano de Desenvolvimento são fundamentais, e a cooperação internacional e um pré-requisito para maiores investimentos e para o crescimento social dos países latino-americanos”, explicou Messner.

Segundo o diretor do DIE, a crise econômica mundial pode ser vista como uma grande oportunidade de a América Latina criar um mercado regional realmente comum. Até agora, o comércio entre os países latino-americanos é relativamente reduzido: somente 20% dos fluxos comerciais nacionais se destinam a outros países latino-americanos.

Na Europa, esse volume oscila entre 60% a 70%, o que significa um potencial regional muito alto. “A América Latina teria que mobilizar esse potencial, para ter um melhor posicionamento no futuro”, aconselhou Messner, acrescendo que um dos principais setores de investimentos é a infraestrutura.

“Seria crucial a criação de uma infraestrutura latino-americana na área de energia e água, pois isso repercutiria na oferta de emprego do continente”, explicou.

Sairemos da crise

A luz no fim do túnel depende, por um lado, de que a economia mundial não entre em recessão, algo teria um grande impacto sobre a América Latina devido à sua dependência das exportações de produtos primários. “Esse é um lado da moeda”, disse Messner.

Para o especialista, “o outro lado da moeda é a reação dos governos latino-americanos à crise. Muito poderia ser feito. Agora, uma perspectiva latino-americana seria muito mais importante do que somente reações nacionais. É necessária uma perspectiva continental em relação ao seu posicionamento dentro da economia global”.

Deutsche Welle

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