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Economia – Países em desenvolvimento são os que mais sofrem com a crise

EditorPor Editor23 de março de 20095 Mins Leitura
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A crise econômica provocou mudanças de pensamento a respeito do papel dos mercados financeiros. A função do Estado e das instituições internacionais vem sendo repensada e deverá ser debatida na Cúpula do G20 em Londres.

Por trás dos 50 pontos para regular os mercados financeiros, estabelecidos em novembro último na cúpula de Washington e que deverão ser rediscutidos no encontro do G20 em Londres, em abril próximo, escondem-se dúvidas fundamentais a respeito da atual ordem econômica. Os questionamentos giram em torno dos efeitos das crises financeira e econômica no desenvolvimento global, bem como do papel desempenhado pela Europa na definição de uma nova ordem mundial.

Estes foram também os assuntos discutidos num encontro de representantes da sociedade civil e especialistas em política de desenvolvimento, que se reuniram em Bonn. Para Christa Randzio-Plath, da Federação das ONGs Alemãs para Política de Desenvolvimento, a razão da crise é óbvia e está nas práticas desordenadas dos bancos. “Regulamos na Europa, por exemplo, até a curvatura que um pepino pode atingir para poder ser comercializado, mas um produto financeiro, especialmente os marvailhosos derivados, pode chegar ao mercado sem qualquer espécie de regras”, diz Randzio-Plath.

Como os bancos nos países em desenvolvimento são estruturados de forma distinta, pareceu, à primeira vista, que essas nações passariam ilesas pela crise financeira. Hoje, no entanto, está claro que os efeitos da crise nesses países se dão até de forma muito mais virulenta do que nas nações desenvolvidas.

Sebastian Paust, que foi coordenador da InWent (Sociedade Internacional para o Aperfeiçoamento Profissional e Desenvolvimento) junto ao Banco de Desenvolvimento Asiático, em Manila, explica por que a Ásia está sendo especialmente afetada pela crise.

“Isso se dá naturalmente em função das reduções maciças no volume de exportações. A demanda de produtos nos EUA e na Europa caiu em proporções equivalentes. Outra razão é o recuo dos investimentos diretos nesses países, também dos investimentos nos mercados de títulos locais”, analisa Paust.

Além disso, há um problema específico dos países em desenvolvimento: devido à crise econômica, aumenta o desemprego entre os emigrantes, que deixam de enviar remessas do exterior aos seus países de origem. Uma situação que pode ser observada nas Filipinas, segundo Paust: “O fato de que muitos filipinos trabalham no exterior, enviando todo ano 14 bilhões de dólares ao país, é um fator econômico e financeiro muito importante. O mesmo vale para países como o Paquistão, entre outros”.

Sem o auxílio dos parentes que vivem no exterior, sobe o número de pessoas assoladas pela pobreza. Isso num momento em que, exatamente na Ásia, havia sido possível, através do alto crescimento econômico, reduzir o número de pessoas vivendo em extrema pobreza de 900 milhões para 600 milhões de pessoas.

Ou seja, a Ásia estava no melhor caminho rumo ao posto de primeira região a atingir as metas do milênio, estabelecidas no ano de 2000 por todos os países-membros da ONU. Estas metas preveem uma redução de 50% da pobreza absoluta até o ano de 2015.

As metas terão que ser adiadas, caso as nações industrializadas continuem a reduzir, em função da crise, os meios destinados à cooperação para o desenvolvimento. Mas como explicar aos países em desenvolvimento que não há recursos para o combate à pobreza, quando, ao mesmo tempo, são investidos bilhões de euros na salvação dos bancos?

Na opinião de Dirk Messner, diretor do Instituto Alemão de Política de Desenvolvimento, isso iria acentuar ainda mais as já sérias dúvidas dos países em desenvolvimento em relação ao conceito econômico das nações ocidentais.

“A percepção, sob a perspectiva de muitos países não industrializados, é a de que estamos lidando com instituições falidas, em termos de suas tarefas primordiais. O Fundo Monetário Internacional (FMI), por exemplo, deveria ter a precaução de evitar que surjam tais desequilíbrios macroeconômicos, criando um sistema prévio de alarme. Tudo isso não funcionou”, observa Messner.

Ele defende que a reorganização das instituições internacionais e que os bilionários investimentos sejam usados na criação de uma nova economia. Messner critica que inacreditáveis somas em dinheiro foram investidas na conservação das estruturas existentes. Segundo ele, muito mais importante seria uma transformação em direção a uma economia mundial voltada para a proteção do clima e dos recursos naturais, aspectos urgentes e que não podem ser protelados.

Diante de todos esses desafios, Messner vê boas chances de que a Europa assuma uma papel decisivo: “Sessenta porcento dos investimentos internacionais destinados à cooperação econômica vêm da Europa. Precisamos mobilizar esse potencial. E a Europa foi protagonista na questão da política climática. Em toda a última década, esse processo foi levado adiante. Ainda estamos, sob uma perspectiva econômico-tecnológica, à frente”, diz o especialista.

Também na cooperação internacional a Europa desfruta de uma fama de honestidade, o que conta pontos para o continente: “Construímos um capital de 50 anos em relação à questão da cooperação além-fronteiras. No mundo de amanhã, se quisermos ter o controle sobre as crises econômica, climática e de recursos naturais, iremos precisar muito mais de governança regional do que de uma cooperação regional e de integração”, afirma Messner.

O pressuposto para que isso aconteça, no entanto, é o de que a Europa, enfim, mantenha uma posição comum. Até agora, o continente não conseguiu se apresentar como um bloco em defesa de uma mesma postura. Também no contexto do encontro do G20, a Europa tenta garantir a participação de um número maior de europeus ao invés de tentar chegar, antes do encontro, a uma posição comum.

Zhang Danhong/Deutsche Welle

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