
Economistas recuam e descartam autoregulação do mercado: o Estado permanece decisivo na definição das políticas econômicas
“A crise econômica mundial deverá durar mais um ou dois anos”. A afirmação foi feita em São Paulo por Joseph Stiglitz, vencedor do Prêmio Nobel de economia em 2001, ex economista-chefe e ex vice-presidente do Banco Mundial.
Além de exportar as perdas com as hipotecas, os Estados Unidos exportaram problemas globais e agora a crise chega aos países em desenvolvimento, acrescentou. A premissa do fundamentalismo de mercado que rezava que por si só os mercados seriam auto-regulativos, e que o crescimento seria sustentado e compartilhado foi posta por terra. Os Estados Unidos mostraram que o crescimento sustentado e compartilhado prometido, não é sustentado e não foi compartilhado.
A data de 15 de setembro foi citada como emblemática, por representar um divisor de águas que marcou a descrença no fundamentalismo de mercado. Os mercados não se auto-ajustam, afirmou Stiglitz, acrescentando que Bush não se preocupou com as pessoas, com a perda de suas casas e de seus empregos. E, que hoje 1/3 dos americanos estão cobertos pelo seguro desemprego, enquanto os outros 2/3 não recebem nada. Como se não bastasse, os números estão crescendo e na próxima semana 800 mil americanos perderão estes benefícios, pois os prazos expirarão.
Fracasso em compartilhar a riqueza
Stiglitz ressaltou que os recursos gerados foram para 5% de integrantes do alto da pirâmide, que a renda média da classe média americana está pior do que há oito anos e, que os pobres estão mais pobres. Para o economista esta situação demonstra, de forma inequívoca, o fracasso em compartilhar a riqueza.
Curiosamente, a situação exposta por Stiglitz nos remete à teoria do ex-ministro Delfin Neto de “fazer o bolo crescer para depois repartir”, predominante nas cabeças ditas iluminadas nos governos de exceção e que, da mesma forma, na America Latina resultou em fracasso econômico e alto custo social.
Mas, sublinhou o economista, além dos riscos existem as oportunidades nas crises, como o deslocamento de conhecimento e de idéias para além das fronteiras nacionais e o estreitamento da lacuna entre os países em desenvolvimento e desenvolvidos – o que é mais importante que estreitar laços em termos econômicos.
E como sucessos da globalização, Stiglitz traçou como o mais importante que a China e a Índia – países que detém 2,4 bilhões de pessoas – estão mudando o cenário global. O leste da Ásia há 170 anos representava perto de 45% do PIB, número que após a colonização encolheu para 5% do PIB global. E, agora, volta a ocupar a posição de 170 anos atrás, com o crescimento de 10% ao ano da China e 8% da Índia – crescimento sem paralelo. Na América Latina, cita o crescimento de 5%, ocasionado pelo aumento da demanda das commodities, como histórico.
Falta de consenso em Washington
Mas a moral da história, pontuou Stiglitz, é que o futuro é sombrio e esta é a pior crise desde a grande depressão. Em um mês houve um aumento de 20% na taxa de desemprego nos Estados Unidos, representando 250 mil pessoas. Um milhão de empregos no setor privado foram perdidos neste ano. As pessoas estão sem emprego, sem casa e sem economias para a aposentadoria. Contudo, explica Stiglitz, o estouro da bolha imobiliária e a cultura do crédito e do consumo – com pessoas vivendo além de seus meios – não são as únicas razões da crise americana.
Estados e municípios estão com as receitas despencando e haverá 100 milhões de dólares a menos em circulação, o que irá deprimir a economia americana. Para ele, tudo sugere que o futuro dos EUA e do mundo não é nada promissor e espera que não se volte à década perdida. “O consenso de Washington e o seu modelo, não funcionou nem em Washington” argumenta.
Ao referir-se ao futuro governo de Barak Obama Stiglitz afirmou que existem urgências. E, o primeiro assunto que o novo presidente terá que enfrentar será a recessão econômica. “A meu ver o que ele delineou é uma estrutura para uma reação adequada. Uma das primeiras coisas a fazer será a respeito das execuções hipotecárias. Isto porque se não for feito algo já, o problema bancário ficará bem pior”.
O segundo ponto, acrescentou, será estimular a economia em três partes: a primeira tratará o problema dos desempregados; a segunda será viabilizar alguns estados que terão problemas de 100 milhões de dólares; e por terceira o aumento dos dispêndios para infra-estrutura, pois os EUA têm déficit fiscal e de infra-estrutura, tristemente ilustrado pelas quedas das pontes em Minneapolis.
A arte da maquiagem
Outro problema importante, de acordo com Stiglitz, será assegurar que os U$ 700 bilhões do programa de reestruturação, restituam o sistema de concessão de crédito. “A forma como estão sendo utilizados, mostra que o processo está fracamente estabelecido e que não funcionará. A parte final do programa é a questão regulatória. Que as verbas sejam usadas da maneira devida. Este é o arcabouço do plano. A ordem de grandeza deverá ser amplamente discutida” finaliza.
Entre os economistas americanos, ressaltou Stiglitz, há um consenso de que é preciso um estímulo de 2% do PIB, o que representa U$ 300 milhões. Alguns vão querer dobrar o tamanho deste estímulo. Na verdade, o imperativo será fazer o possível para maximizar muito o valor do estímulo bancário. Certamente haverá pontos conflitantes.
“O pessoal de Wall Street acredita que o mais importante é destacar a confiança na economia. Relacionado com o fato de que todos os americanos concordam, e aí eu me incluo, que há de se restaurar a confiança na economia. Wall Street possivelmente vai querer maquiar por fora e não resolver o problema. Os reguladores são ótimos em fazer as coisas em um nível tal de confusão que ninguém entende nada. Fizeram que o nível de falta de transparência chegasse ao estágio da arte” diz Stiglitz.
A mudança
O economista lembrou que estamos vivendo uma época singular da história. As fontes de liquidez do mundo estão na Ásia e orienta Médio e, naturalmente, sente-se o vácuo que há nas decisões em Washington. E, a nova administração ainda não pode tomara suas decisões. “Não podemos confiar apenas no estado de direito. Não podemos expressar que o próximo presidente seja multilateral e o mundo inteiro acreditar que isto vai acontecer. Precisamos demonstrar para que a mudança nas instituições aconteça de forma rápida”.
A eleição de Obama fala por si só o que é a democracia nos EUA e o que oferece em abertura, argumenta. De muitas formas a tarefa de Obama vai ser fácil. Vindo depois de Bush, que foi tão ruim em tantos aspectos, certamente a maior parte das coisas serão melhores do que sob a administração anterior. Por outro lado, lembra Stiglitz, será muito importante que o presidente saiba gerenciar as expectativas. O que vimos até agora é que a desigualdade crescia e as oportunidades decresciam com a mesma força. Será difícil para Obama reverter isto com rapidez. A razão da fraca economia americana hoje é o resultado de anos de erros. E, ainda que Obama faça tudo da forma correta, a recuperação não será rápida.
Fonte: Global 21 Notícias
