Década de 80. Frio próprio ao inverno gaúcho. Neve em Porto Alegre. Bailei na Curva chega a Novo Hamburgo. No camarim, o então ator Júlio Conte bebe conhaque para aquecer o corpo. Comemorando 25 anos da estréia oficial, ele volta aos palcos hamburguenses para participar da segunda edição do projeto Cultura no Campus, dessa vez como diretor.
Bailei na Curva é uma das primeiras peças de teatro gaúchas a ganhar projeção nacional. Um marco na resistência à ditadura militar. Júlio Conte destaca que até versão em inglês já teve. “Que eu saiba, no Brasil foram mais de cem montagens”, acrescenta. São duas encenações oficiais. A estréia, em 1983, retomada em 1994, e a segunda com adaptações, em 2000.
A nostalgia predomina quando Conte se refere aos atores que atuaram com ele. “Em 1994 entraram quase todos da minha geração. João França, Luti Pereira, Miriam Tessler, Neneca Cavalheiro…”, lembra o diretor. “Em 2000, foi a vez de uma geração que resolveu fazer teatro porque assistiu o Bailei na Curva de 83, como o Julinho Andrade, Érico Ramos, Tiago Conte, Juliana Brondani, Cíntia Ferrer e assim caminha a humanidade.”
Pense em tudo que aconteceu nos últimos 25 anos no Brasil para ter uma idéia das histórias que o diretor de um espetáculo que se mantém “firme e forte” pode contar. “O General Hugo Abreu ameaçou uma investida contra a estréia que felizmente não se concretizou. Em Brasília, dei uma entrevista e quase fui preso”. Duas décadas depois, ele se emociona ao falar da relação com o público. “Em apresentação recente na UFRGS os aplausos duraram mais de 10 minutos.”
O espetáculo
Sete crianças vizinhas em abril de 1964. A classe social as distância, a amizade as une. Em comum, as conseqüências nefastas do Golpe Militar. Pais ligados aos militares, outros à resistência. As crianças crescem e convivem com dilemas impostos pelo regime ditatorial de um país onde emergiam manifestações políticas e culturais. A história termina na década de 80, com o fim da censura.
