O acesso à detecção precoce do câncer de mama no Brasil varia conforme as condições sociais e o lugar onde vivem as mulheres. Dados da Pesquisa Nacional de Saúde (PNS) de 2019, utilizados pelo Instituto Nacional de Câncer (INCA), mostram que 60,5% das mulheres de 50 a 69 anos nas áreas urbanas haviam realizado mamografia nos dois anos anteriores. Nas áreas rurais, a proporção era de 41,6%.
A escolaridade também aparece associada à realização do exame. O percentual era de 49% entre mulheres sem instrução ou com ensino fundamental incompleto e chegava a 77,8% entre aquelas com ensino superior completo. Os indicadores são referentes a 2019 e ajudam a dimensionar diferenças de acesso identificadas antes das mudanças mais recentes nas recomendações de rastreamento.
O cenário de desigualdade acompanha uma doença para a qual o INCA estima 78.610 novos casos por ano no país entre 2026 e 2028. A projeção corresponde a 71,57 casos novos para cada 100 mil mulheres. Sem considerar os tumores de pele não melanoma, o câncer de mama é o mais incidente entre as brasileiras.
Em 2024, foram registrados 20.849 óbitos pela doença, conforme o Atlas de Mortalidade por Câncer, com dados do Sistema de Informações sobre Mortalidade.
Renda e território influenciam o acesso aos exames
A PNS de 2019 apontou cobertura mamográfica de 58,3% entre mulheres de 50 a 69 anos no Brasil. A pesquisa considera a realização do exame nos dois anos anteriores à entrevista e inclui atendimentos nas redes pública e privada.
Segundo a análise apresentada pelo INCA, a proporção de realização de mamografias entre mulheres com rendimento domiciliar por pessoa superior a cinco salários mínimos era quase o dobro da observada entre aquelas sem rendimento ou com até um quarto do salário mínimo.
A pesquisa também identificou menor proporção de exames entre mulheres pardas. Nas regiões Norte e Nordeste, era mais expressiva a parcela de mulheres dessa faixa etária que nunca haviam realizado mamografia.
Entre as participantes que tinham feito o exame nos dois anos anteriores, 49,5% recorreram ao SUS. O serviço privado teve maior participação nas regiões Sudeste e Centro-Oeste.
Câncer de mama: incidência apresenta diferenças regionais
As estimativas de novos casos também variam pelo território brasileiro. Para cada ano do triênio de 2026 a 2028, o INCA projeta 88,29 casos por 100 mil mulheres no Sudeste e 77,91 no Sul.
No Centro-Oeste, a taxa estimada é de 61,32; no Nordeste, de 58,02; e no Norte, de 31,28 casos por 100 mil mulheres. Esses indicadores descrevem a ocorrência estimada da doença e não devem ser interpretados, isoladamente, como medida da qualidade do atendimento em cada região.
Pesquisas investigam desigualdades raciais
O estudo Mantus — Mulheres Negras e Câncer de Mama Triplo Negativo: Desafios e Soluções para o SUS, iniciado em 2022, investiga fatores sociais, comportamentais, ambientais e biológicos relacionados à ocorrência desse subtipo da doença.
O trabalho busca compreender o perfil das mulheres acometidas pelo câncer de mama triplo negativo e contribuir para estratégias de prevenção, diagnóstico e tratamento. Na etapa piloto, os pesquisadores analisaram retrospectivamente dados de pacientes atendidas no INCA.
Um boletim do Ministério da Saúde publicado em 2025 também aponta barreiras estruturais no acesso aos serviços e destaca estudos que identificam menor realização de mamografias e menor sobrevida após o diagnóstico entre mulheres pretas.
Mulheres indígenas enfrentam obstáculos específicos
Para mulheres indígenas, o acesso ao diagnóstico e ao tratamento pode envolver deslocamentos a partir de áreas remotas, além de barreiras culturais e linguísticas.
O Ministério da Saúde alerta que os indicadores de mortalidade dessa população exigem cautela. O número relativamente pequeno de óbitos e problemas no preenchimento da informação de raça ou cor podem produzir oscilações importantes nas taxas.
Uma análise do Cidacs/Fiocruz Bahia, com mais de 20 milhões de mulheres da Coorte de 100 Milhões de Brasileiros, encontrou risco de mortalidade por câncer de mama 37% menor entre indígenas em comparação com brancas. O resultado se refere à população estudada e não elimina os obstáculos de acesso. Os possíveis fatores de proteção ainda não estão totalmente compreendidos.
Rastreamento e diagnóstico têm indicações diferentes
Desde setembro de 2025, o Ministério da Saúde recomenda o rastreamento por mamografia no SUS dos 50 aos 74 anos, a cada dois anos. A orientação ampliou a faixa anteriormente utilizada, dos 50 aos 69 anos.
Mulheres dos 40 aos 49 anos e acima dos 74 anos, sem sintomas, também podem realizar o exame sob demanda, após orientação profissional sobre os possíveis benefícios e riscos.
O rastreamento é voltado a pessoas sem sinais suspeitos. Quando há alterações nas mamas, a investigação tem finalidade diagnóstica e deve ser avaliada pela equipe de saúde, independentemente da faixa etária do rastreamento. Entre os sinais que exigem atenção estão nódulos endurecidos ou em crescimento, secreção sanguinolenta pelo mamilo e mudanças na pele da mama.
Texto: Maria Clara Garcia – Estagiária de Jornalismo
