As previsões para o El Niño em 2026 mudaram significativamente ao longo dos últimos meses. Depois de um início de ano marcado por incertezas sobre a evolução do fenômeno El Niño-Oscilação Sul (Enos), o cenário agora é bem mais definido: o El Niño está estabelecido, continua se intensificando e pode atingir intensidade muito forte até o fim do ano.
A atualização mais recente da Organização Meteorológica Mundial (OMM), divulgada em setembro, aponta probabilidade próxima de 100% de permanência do El Niño até fevereiro de 2027. Segundo a entidade, as condições excepcionalmente quentes no Pacífico tropical favorecem uma intensificação adicional nos próximos meses.
E algumas projeções chamam ainda mais atenção.
Simulações experimentais do Laboratório de Dinâmica de Fluidos Geofísicos (GFDL), ligado à Administração Nacional Oceânica e Atmosférica dos Estados Unidos (NOAA), indicam alta confiança na ocorrência de um El Niño historicamente forte no fim do ano e início do inverno do Hemisfério Norte.
Na atualização de 8 de setembro, todas as 30 simulações do modelo experimental SPEAR apontaram para um evento capaz de competir com — e, em alguns cenários, superar — os episódios mais fortes do registro histórico. A projeção para o pico ficou ligeiramente abaixo daquela feita pelo mesmo modelo em agosto, mas permanece em patamar excepcional.
Como a previsão mudou tanto?
Previsões para El Niño e La Niña não funcionam como uma antecipação exata do que acontecerá meses depois. Os centros meteorológicos atualizam continuamente seus modelos conforme novas informações sobre temperatura do oceano, ventos, pressão atmosférica e circulação no Pacífico entram nos cálculos.
Foi justamente essa evolução do El Niño em 2026 que alterou o cenário ao longo dos últimos meses.
Em junho, a OMM já apontava o desenvolvimento rápido do El Niño durante o trimestre entre julho e setembro. No fim de julho, a previsão avançou para um El Niño forte entre agosto e outubro. Agora, em setembro, a organização afirma que o fenômeno está firmemente estabelecido e deverá atingir intensidade muito forte antes de alcançar seu pico próximo ao fim do ano.
As observações do próprio oceano ajudam a explicar essa mudança. Segundo a OMM, a anomalia de temperatura da superfície do mar na região Niño 3.4 passou de uma média de aproximadamente 1,5°C acima do normal entre maio e julho para cerca de 2°C em julho. Entre o fim de julho e meados de agosto, valores semanais chegaram à faixa de aproximadamente 2,2°C a 2,6°C acima da média.
Abaixo da superfície, a situação chegou a ser ainda mais expressiva: em determinadas áreas do Pacífico tropical, as temperaturas ficaram mais de 8°C acima da média entre julho e o início de agosto. Esse grande volume de água quente armazenado abaixo da superfície é um dos fatores que sustentam a previsão de fortalecimento do fenômeno.
Pode ser o El Niño mais forte da história?
Ainda é cedo para afirmar isso.
É justamente aqui que existe uma diferença importante entre uma projeção de modelo e aquilo que efetivamente será observado nos próximos meses.
O modelo experimental SPEAR, da NOAA, aponta que o evento poderá rivalizar ou até superar os maiores do registro histórico. Mas a própria NOAA identifica essas projeções como experimentais, e outros sistemas de previsão são considerados na elaboração dos prognósticos oficiais.
A OMM adota uma formulação mais cautelosa e classifica a expectativa atual como de um El Niño de intensidade muito forte, com pico previsto para o fim de 2026.
A previsão oficial da NOAA também praticamente elimina, neste momento, a possibilidade de uma reversão rápida: na atualização de setembro, a probabilidade de El Niño é de 100% para os trimestres de setembro a novembro, outubro a dezembro, novembro a janeiro e dezembro a fevereiro.
E o que isso significa para o Rio Grande do Sul?
Para os gaúchos, a evolução do El Niño em 2026 merece atenção porque o fenômeno costuma influenciar o regime de chuvas no Sul do Brasil.
Mas há um cuidado importante: um El Niño muito forte não significa automaticamente eventos extremos na mesma intensidade em todos os lugares.
A própria OMM alerta que a força do fenômeno no Oceano Pacífico não determina, sozinha, a gravidade dos impactos em determinada região. Outros fatores climáticos e condições atmosféricas regionais também interferem no resultado.
Para setembro, o Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet) prevê volumes de chuva acima da média histórica em áreas da Região Sul, além de partes do Sudeste, Centro-Oeste e Norte. A previsão mensal, porém, não significa chuva constante nem permite antecipar a ocorrência de um evento específico em uma cidade.
O acompanhamento das previsões regionais ganha ainda mais importância conforme o El Niño se aproxima do período em que normalmente atinge seu auge. De acordo com a OMM, o fenômeno costuma alcançar a maior intensidade entre novembro e fevereiro.
El Niño em 2026 deve avançar por 2027
Mesmo depois do pico previsto para o fim deste ano, os efeitos sobre o clima podem continuar sendo sentidos em 2027.
A OMM aponta probabilidade próxima de 100% de permanência do fenômeno até fevereiro. A NOAA mantém probabilidade de 97% de El Niño no trimestre entre fevereiro e abril e, somente entre abril e junho de 2027, o cenário passa a favorecer condições neutras, atualmente com 55% de probabilidade.
Ainda haverá novas rodadas de modelos e atualizações conforme o comportamento do oceano e da atmosfera for observado.
O cenário do El Niño em 2026, portanto, não permite afirmar que o fenômeno será o mais intenso já registrado. Mas as projeções mais recentes convergem em um ponto: o fenômeno já está estabelecido, continuará se fortalecendo e deverá alcançar intensidade muito forte nos próximos meses, fazendo do fim de 2026 e do início de 2027 um período de atenção para os serviços meteorológicos.
