Com o apoio do Ceduca DH, aprender a dizer “bom dia”, “por favor”, “com licença” e “obrigado” foi um dos primeiros passos de Olwith Lindor ao chegar ao Brasil. Dez anos depois, o haitiano integra o elenco do Disney On Ice e considera o país onde aprendeu português como sua casa.
A trajetória de Lindor e a história do venezuelano Jhonaiker Bejarano ganharam um novo capítulo na última quarta-feira (9), quando os dois receberam certificados de português para estrangeiros do Centro de Educação em Direitos Humanos (Ceduca DH), projeto social desenvolvido pela Universidade Feevale.
Mais do que registrar o aprendizado de um idioma, a certificação representa parte do processo de adaptação dos dois migrantes ao Brasil.
Do Haiti aos espetáculos internacionais
Lindor chegou ao país em 2016 acompanhado da irmã e sem falar português. Participou do Ceduca DH naquele ano, em 2017 e durante parte de 2018. Em 2026, retornou ao projeto para concluir a certificação.
“Era complicado para nós. O projeto nos ajuda a entender os nossos direitos e deveres aqui. Toda a ajuda que recebi no projeto me ajudou a dar um grande passo na minha vida”, conta.
Depois de trabalhar em uma gráfica, Lindor conseguiu se aproximar do sonho de atuar como atleta de patinação no gelo. Atualmente, integra o elenco do Disney On Ice, espetáculo produzido pela Feld Entertainment sob contrato com a The Walt Disney Company. Conforme as informações divulgadas pela Feevale, ele foi o primeiro patinador haitiano a integrar o elenco.
O trabalho faz com que passe grande parte do tempo nos Estados Unidos e viaje por diferentes países durante as turnês. Mesmo assim, mantém a ligação construída com o Brasil.
“O Disney On Ice me proporciona a oportunidade de viajar bastante com os shows, mas eu costumo falar que, graças ao acolhimento do projeto, quando volto ao Brasil sinto que estou voltando para casa”, afirma.
Para Lindor, dominar o idioma foi essencial para ganhar autonomia no cotidiano.
“Quando você chega a um país e não fala a língua, você fica muito limitado e pode não conseguir fazer muitas coisas. Mas, quando consegue se comunicar, isso muda tudo”, relata.
“Foi como nascer de novo”
Para Jhonaiker Bejarano, natural da Venezuela, a chegada ao Brasil também exigiu reconstruir aspectos básicos da rotina. Ele veio ao país com a esposa, que já tinha familiares aqui, praticamente sem falar português.
“Foi como nascer de novo. Você precisa aprender a caminhar nas ruas, saber para onde ir, aprender a falar novamente e se adaptar a uma nova cultura. É um processo de recomeço”, define.
Bejarano participou presencialmente do Ceduca DH em 2024. Neste semestre, realizou a certificação de português para estrangeiros de forma on-line e também participou presencialmente de algumas atividades na Universidade Feevale.
O avanço no idioma permitiu buscar novas oportunidades de qualificação. Depois de aprender a se comunicar e escrever em português, ele passou a fazer outros cursos e recentemente concluiu uma formação técnica em Administração. Agora, pretende estudar Logística.
A conquista exigiu conciliar a rotina de trabalho com os estudos.
“Todo o esforço que a gente faz para estar aqui, por exemplo, chegar do trabalho e sair correndo para vir para a sala aprender, é difícil. Então, para mim, esse certificado significa muito”, afirma.
Projeto existe desde 2016
Desenvolvido pela Universidade Feevale desde 2016, o Ceduca DH busca auxiliar no acolhimento e na inserção social de estrangeiros que vivem na região de abrangência da instituição.
Ao longo dos anos, migrantes de países como Haiti, Cuba, Venezuela, Rússia e Egito já passaram pelo projeto.
Além das oficinas de língua portuguesa, são oferecidas atividades de acolhimento, atendimento jurídico e psicológico e oficinas relacionadas à realidade e à cultura brasileira. O projeto também promove ações de conscientização sobre xenofobia e de incentivo ao conhecimento e à defesa dos direitos humanos.
Segundo a coordenadora do Ceduca DH, Márcia Blanco, acompanhar histórias como as de Lindor e Bejarano também serve de estímulo para migrantes que estão começando o processo de adaptação.
“Esses momentos são muito relevantes porque também motivam quem está começando agora. Eles criam expectativa, esperança e mostram que é possível chegar lá”, destaca.
As trajetórias seguem por caminhos diferentes. Bejarano pretende continuar conciliando trabalho e formação profissional. Lindor percorre diferentes países com o Disney On Ice, mas mantém um plano para o futuro: voltar definitivamente ao Brasil.
