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Opinião

O patrimônio mais valioso do cooperativismo não aparece no balanço

Maria Eduarda de Melo PiresPor Maria Eduarda de Melo Pires6 de julho de 20265 Mins Leitura
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Presidente do Conselho de Administração da Sicredi Caminho das Águas

Neste 4 de julho celebramos o Dia Internacional das Cooperativas, data instituída pela Organização das Nações Unidas em 1995. Em 2026, o tema “Cooperativas por um mundo pacífico” nos convida a refletir sobre uma das maiores contribuições do cooperativismo para a sociedade, sua capacidade de aproximar pessoas, fortalecer o diálogo, promover a inclusão e construir comunidades mais resilientes, prósperas e solidárias.

No Brasil, esta celebração ganha um significado ainda mais especial. A recente Lei nº 15.433/2026 reconheceu oficialmente o cooperativismo como parte da cultura nacional brasileira. Mais do que um reconhecimento jurídico, trata-se da valorização de uma prática que, há mais de um século, demonstra que desenvolvimento e prosperidade não decorrem apenas da acumulação de riqueza, mas também da capacidade das pessoas de cooperarem entre si.

Uma história que se confunde com a do cooperativismo

Para a Sicredi Caminho das Águas, esta data possui um simbolismo singular. Em 2026, celebramos também 103 anos de história. Nossa cooperativa nasceu em 1923, exatamente o mesmo ano em que a Aliança Cooperativa Internacional instituiu o Dia Internacional das Cooperativas. Essa coincidência histórica parece sintetizar a própria essência da nossa trajetória. Ao longo de mais de um século, fomos construindo muito mais do que uma instituição financeira. Tornamo-nos parte de um movimento que compreende que desenvolvimento econômico e desenvolvimento humano não competem entre si, ao contrário, fortalecem-se mutuamente.

Como expressão do cooperativismo financeiro, a Sicredi Caminho das Águas consolidou um modelo que alia solidez econômica, participação democrática, proximidade com os associados e compromisso permanente com o desenvolvimento das comunidades. Essa combinação talvez explique por que o cooperativismo permanece tão atual, uma vez que ele demonstra, na prática, que resultados sustentáveis nascem quando pessoas se unem em torno de propósitos comuns.

O cooperativismo administra dois patrimônios

Essa reflexão conduz a uma distinção que considero particularmente relevante.

Quando falamos em capital social dentro de uma cooperativa, é natural que a primeira associação seja com as cotas-partes integralizadas pelos associados. Esse capital é indispensável para a solidez patrimonial, para a sustentabilidade da instituição e para a sua capacidade de crescer e ampliar o atendimento às comunidades.

Entretanto, existe outra acepção igualmente importante para a expressão Capital Social. Refiro-me ao Capital Social compreendido como um ativo relacional, formado pela confiança, pela reciprocidade, pela participação, pelo senso de pertencimento e pelas relações construídas ao longo do tempo. Não se trata de um patrimônio registrado no balanço patrimonial, mas de um ativo que fortalece comunidades, amplia oportunidades e transforma vínculos em desenvolvimento compartilhado.

Aí reside uma das maiores singularidades do cooperativismo financeiro. Enquanto administra o capital econômico indispensável para sua sustentabilidade, ele também cultiva um patrimônio invisível que fortalece a vida comunitária, amplia a cooperação e cria condições para que o desenvolvimento seja duradouro e compartilhado.

O patrimônio invisível que transforma comunidades

Os estudos sobre Capital Social (que resulta em Ativo Relacional), demonstram que comunidades marcadas pela confiança, pela cooperação e pela participação tendem a apresentar melhores indicadores de desenvolvimento, maior capacidade de inovação e instituições mais sólidas. O cooperativismo, muito antes de esse conceito ganhar espaço na literatura acadêmica, já construía esse patrimônio por meio de sua prática cotidiana.

Cada assembleia, cada núcleo, cada conselho, cada encontro comunitário e cada decisão compartilhada representam investimentos permanentes nesse ativo relacional. São espaços onde se fortalece a confiança, se desenvolve o pertencimento e se amplia a capacidade coletiva de enfrentar desafios e construir soluções.

Ao longo de seus 103 anos, a Sicredi Caminho das Águas tem sido protagonista nessa construção. Cada associado, colaborador, coordenador de núcleo, conselheiro e parceiro contribui para fortalecer uma rede de relações que transcende os serviços financeiros e se converte em desenvolvimento sustentável para milhares de pessoas. Essa talvez seja a maior contribuição do cooperativismo financeiro: demonstrar que o patrimônio mais valioso de uma cooperativa não está apenas nos recursos que administra, mas na capacidade de gerar confiança mobilizar pessoas e transformar relações em positividade.

O legado que permanece

Os recursos financeiros são essenciais e continuarão sendo. Eles sustentam investimentos, impulsionam negócios e permitem o crescimento das cooperativas. Contudo, o capital social, compreendido como ativo relacional, possui uma característica singular, pois quanto mais é compartilhado, mais se fortalece. A confiança gera cooperação, a cooperação amplia oportunidades, as oportunidades fortalecem as comunidades, que, por sua vez, produzem ainda mais confiança. Forma-se, assim, um círculo virtuoso capaz de atravessar gerações.

Essa é a contundente mensagem do tema proposto para este ano. Construir um mundo mais pacífico significa construir relações mais confiáveis, fortalecer comunidades mais colaborativas e reconhecer que paz, prosperidade e desenvolvimento possuem uma mesma raiz, a capacidade de cooperar.

Celebrar o Dia Internacional das Cooperativas é, portanto, celebrar muito mais do que um modelo singular de sociedade empresarial. É reconhecer uma forma de organização que consegue conciliar eficiência econômica com compromisso humano, administrar patrimônio financeiro sem perder de vista o patrimônio relacional e compreender que a verdadeira prosperidade nasce quando pessoas crescem juntas.

Na Sicredi Caminho das Águas, esse compromisso atravessa 103 anos de história. É ele que nos inspira a seguir honrando nosso legado, fortalecendo comunidades e demonstrando, todos os dias, que o patrimônio mais valioso do cooperativismo não aparece no balanço patrimonial. Ele se revela na confiança que cultivamos, nas relações que construímos e na prosperidade compartilhada que deixamos como legado para as próximas gerações.

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Maria Eduarda de Melo Pires

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