Por Margarete Fagundes Nunes
Docente do PPG em Memória Social e Bens Culturais da Unilasalle/Canoas
Muitos homens agridem e/ou matam suas mulheres, e não é de hoje. A opressão da mulher é histórica, fez e faz vítimas todos os dias. Tudo isso, eu sei. Sempre soube, desde guria pequena. Quando criança, não entendia algumas histórias que me contavam sobre mulheres que apanhavam dos seus maridos, caladas.
Também não entendia por qual razão a minha mãe fazia tantas recomendações e proibições em relação aos homens: não conversa muito, não abraça, não sorri, não faz isso, não faz aquilo… Eu só fui entender o pânico de minha mãe um pouco mais tarde, já na adolescência, quando comecei a ser vítima de abordagens agressivas de cunho sexual de homens de todas as idades.
E eis que naquele momento tive o privilégio de conhecer muitas mulheres feministas. Aprendi muito com elas. Posso dizer que tive uma formação feminista por causa da militância política durante a juventude, ainda que os partidos políticos e os movimentos sociais estivessem crivados de homens machistas. Situação que não mudou muito até os dias atuais.
Os anos eram os da década de 1980. As feministas ocupavam espaços, especialmente nas grandes e médias cidades brasileiras: estavam nos movimentos sociais, nos sindicatos, nos partidos políticos, no teatro, nas artes em geral. É deste período o slogan feminista Quem Ama não Mata. As mulheres, de fato, iam às ruas, ao parlamento, em todos os espaços possíveis, clamar pelas Delegacias da Mulher. Estou falando de um lapso de tempo de um pouco mais de 40 anos. As delegacias surgiram, ainda que escassas, mas os homens continuaram violentando, espancando, matando…
Nos anos 1990, constatou-se que as Delegacias não davam conta, era preciso avançar, criaram-se os primeiros abrigos para as mulheres vítimas de violência. Surgiram abrigos e casas de apoio em várias localidades. Grande conquista. E eles? Continuaram agredindo, ameaçando, matando…
Em 1997, recém Mestra em Antropologia Social, e então detentora de um saber acadêmico das relações de gênero, assumi a Assessoria de Políticas Públicas para as Mulheres na Prefeitura Municipal de Porto Alegre, vinculada à Coordenação de Direitos Humanos e Cidadania. Naquele momento, acompanhei a criação do Comitê Municipal Gestor de Atendimento às Mulheres Vítimas de Violência Sexual.
Participava também do Conselho Municipal dos Direitos da Mulher. Via de perto, e com a responsabilidade de gestora pública, os abusos contra as mulheres. Em uma ocasião, recebi um recado intimidador de um agressor: “cuidado, vai sobrar pra ti também”.
Nos anos 2000, era preciso avançar, fortalecer as políticas públicas de prevenção, apoio, assistência, e criou-se a Lei Maria da Penha, em 2006. Mas ainda havia gargalos, entraves, nas políticas de proteção. Os equipamentos e serviços existentes não eram suficientes. Raramente os agressores eram punidos, não havia justiça. Então, criou-se a Lei do Feminicídio, em 2015. Além da proteção, era preciso punir os agressores. Em 2024, a nova Lei Antifeminicídio agravou a pena, aumentando o período de reclusão. E eles pararam? Não, não pararam…
Em 2026, ainda estamos aqui, perplexas (os), diante da incidência de crimes contra as mulheres e, diga-se, alguns deles incluem filhos e parentes próximos. E a pergunta persiste: por que continuam nos matando?
Continuam nos matando porque não compreenderam a razão da nossa luta e nem assimilaram nossa condição de sujeito de direitos. Continuam nos matando porque permanecem presos a um modelo de masculinidade que não responde mais às nossas expectativas e exigências: somos donas do nosso corpo, das nossas ideias e vontades. E por não renunciarmos à autonomia e liberdade conquistadas – defendidas tão arduamente pelas nossas ancestrais – nos matam.
Matam-nos porque sabem que a cada mulher que morre, outras tantas passam a dispensar parte do seu tempo e energia para a defesa da integridade física, moral e psicológica de mulheres que seguem presas aos ciclos da violência, mas que deveriam estar por aí, na vida, discutindo sua participação nos espaços da política, da ciência, das artes, do mundo do trabalho. Usam o feminicídio como freio.
Em 2026, o slogan é outro: Parem de nos matar! Somos muitas, e muitos! Esta luta é de todas (os) nós, mulheres e homens que acreditam ser possível viver em uma sociedade onde não haja discriminação e violência, mas respeito, solidariedade, apoio mútuo. Não há democracia sem equidade nas relações de gênero. E esta discussão precisa ser feita por mulheres e homens, em todos os espaços da vida social: na escola, na universidade, no trabalho, nas comunidades, na família, no parlamento, nas instituições públicas do Estado. Tal qual nos convida Chimamanda Adichie, Sejamos Todos Feministas!

