Por Carmen Oliveira Félix
20/10/2007
Madrid lembra-me Agustín Lara, cantando para Maria Félix:
“Cuando llegues a Madrid, chuluna mía,
voy hacerte emperatriz del Lavapiés
y adornarte con claveles, la Gran Vía,
y a bañarte con vinillo de Jerez.”
Confira as imagens dessa viagem.
Inauguramos Madrid com um espetáculo de flamenco no “Las torres bermejas”, uma cantina em estilo mourisco com paredes de colunas revestidos de azulejos. A passionalidade do flamenco me perturba, parece que os homens entram em transe para dançá-lo.
Fora da linha tradicional de palácios e jardins, o que me causou forte impressão foram as torres inclinadas de Picasso, do mesmo arquiteto das falecidas torres gêmeas de Nova York. Um curioso e belo conjunto de linhas verticais e oblíquas discordantes na sua fotogenia.
21/10/2007 – Domingo
Passeamos por Madrid: Plaza de Toros, Plaza de las Cibeles, Calle de Alcalá (32Km), Museo del Prado, Puerta del Sol, Palácio real… Almoçamos em um restaurante pequeno nas imediações do hotel. Chamou-nos a atenção a quantidade de idosos nos bares e restaurantes. Os idosos na Europa gozam de um excelente status. Vestem-se bem, passeiam e curtem as ruas, freqüentam rodas de amigos, conversam livremente. A média dos velhos tem aspecto feliz e independente.
Comemos carne vermelha pela primeira vez desde que estamos em solo europeu. Aqui, a carne não é o prato principal nas refeições. O peixe predomina e em Portugal aproveitamos a preferência pelo bacalhau. Em Madrid toma-se uma ótima cerveja sem álcool, tirada como chopp. Já na Alemanha, não a encontramos, somente em garrafas como no Brasil.
22/10/2007 – segunda-feira

Saímos de Madrid pelo norte em direção a Lourdes, onde visitaremos a famosa basílica.
As aparições da Virgem em terras latinas, com maior freqüência na península ibérica, nos dão o que pensar. Em Fátima, elas tiveram caráter político. Anunciaram aos humildes pastores a segunda grande guerra e as mudanças políticas na União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS), atualmente União Soviética. O terceiro segredo de Fátima ainda é discutível. Teria sido ou não anunciado o atentado ao Papa.
As aparições de Lourdes, em contrapartida, tiveram caráter exclusivamente penitencial, recomendando aos fiéis, penitência e oração. Nos 1800 Km que fizemos entre Madrid e Paris, visitamos Toledo, ainda na Espanha, uma cidade fortificada que data do século VIII. O rio Tejo, que a cerca na Idade Média, o fosso da fortificação. Este local nos serviu de foco para belíssimas fotos.

O Rio que cerca a cidade de Toledo

As principais atrações de Toledo, além da catedral e dos arredores pitorescos, são as casas de artesanato onde se encontram facas, instrumentos metálicos, espadas, espadins, e armaduras que remontam aos tempos das guerras contra os Mouros, quando as espadas de Toledo eram consideradas as mais perfeitas e mais resistentes.
Seguindo viagem após passar por Toledo e Burgos, saímos da Espanha rumo à França costeando o montes Cantábricos. Entramos na França rumo à Lourdes, onde visitamos a Catedral e o local preservado da gruta onde ocorreu a aparição da Virgem (La Roc de Massabiele) .
No fundo da gruta vê-se a fonte que brotou das mãos de Bernardete em uma das aparições, quando a Virgem lhe teria ordenado que cavasse o solo. Esta água foi canalizada para inúmeras bombas onde os fiéis do mundo inteiro se servem em garrafas para levar para seus países de origem.
O local em torno e acima do rochedo das aparições constitui parte do imenso local onde se ergue a basílica e as adjacências que recebem turistas do mundo inteiro, pois ali vimos japoneses, chineses, cristãos do Oriente Médio, sem contar os da América Latina. Sempre nos surpreendem mais cristãos de origem oriental, dos países dominados por grandes massas de religiões Budistas, Xintoístas, Brahmanistas e outras.
De Lourdes fomos a Bordeaux, capital da Aquitânia, um das três mais importantes cidades da França, pólo agrícola e exportador de vinhos, com dois importantes portos: um fluvial no Rio Garonne e o outro marítimo no Oceano Atlântico. O Rio Garonne já teve um calado profundo para grandes navios e Napoleão aproveitou o valor comercial deste porto, mandando construir grandes armazéns, por uma grande extensão de mais de 2Km, onde também havia grandes silos.
A cidade exportava não só vinhos, mas também grãos. Só agora no séc. XXI é que a prefeitura mandou desmanchar os armazéns e transformou o espaço deles em uma praça de lazer para a população, ao longo de toda a costa da cidade. O Rio Garonne forma com o Loire, uma malha estratégica de navegação no país, pois o Loire atravessa toda a França.
Saindo de Bordeaux rumo a Paris, passamos pela faixa de terra chamada “les Landes” ou “As landas”. São cerca de 50Km terra adentro e 250 Km de extensão de costa que eram inutilizados pela salinização. Jean Jacques Russeau, não só filósofo, mas também botânico, estudou a vegetação dessas “landes” e descobriu que eram um tipo de pinus que servia para combustível. Estudando a terra descobriu que com uma camada de terra normal de 15cm mais ou menos, a salinização era neutralizada e os “peine-de-parasole” alcançam hoje altura de 8 a 10m quando antes eram apenas arbustos. Isto apenas como curiosidade, viajando pelo interior da França e atravessando longas plantações desse tipo de pinus (para nós “pinus de guarda-sol”).
A par disso, vimos uma França totalmente lavrada, semeada ou de lavouras recém colhidas. Nenhum só pedaço de terra sem aproveitamento. Mas este elevado senso de aproveitamento do solo é resultante de uma civilização que para nós americanos custa caro, vende-se caríssimo. Para você vir fazer parte dela é preciso que pague a sua parte em trabalho também, pois aqui ninguém está de braços cruzados. Ninguém está inativo, não há, portanto, lugar para as multidões de marginalizados do 3º mundo.
Defrontamo-nos com culturas das mais diversas como o trigo alfafa, centeio, milho, cevada, todos os espaços, todos os cantos, semeados de grãos. Ou longos canteiros de legumes ou verduras, extensas áreas de culturas cobertas para se defender da neve.

Detalhe externo da Catedral de Toledo
